quarta-feira, 23 de setembro de 2015

De pernas pro ar

Não foi há muito tempo, parece... Ainda que tenha sido. Me encontrava ali, refugiada numa cama de hotel, salva do calor de Recife pelo ar condicionado, com as pernas pro ar apoiadas na parede após fazer o usual tour de "aproveitamento da oportunidade de se viajar a trabalho". Algumas da tantas memórias eu relembro quase que nitidamente. Como essa.

Eu já viajava há quase dois anos, a trabalho, em 75% dos meus fins de semana - e quando tirava férias era até mais intenso... A vida de idas e vindas era a rotina. Não usual era o basquete de terça e quinta, o mercado da segunda. Esses tinham a função de eu não viver tão a parte do mundo, me lembrando que os dias da semana existiam. É espantoso olhar o que eu vivia. Sim, espantoso. Ainda que haja uma plateia a elogiar e querer essa vida, e hoje, parada, perguntam quando eu volto àquela "rotina", o que eu vivia era muito louco. Talvez admiram as fotos, a liberdade de se ir e vir e voar e viajar... Eu também admiro, e é muito lindo. Mas... tem sempre o "mas".

Hoje saí andando por uma tarde bem quente aqui na cidade, na qual, agora, não sou visitante, mas moradora. Tão quente que, ao sentar no parque - eleito meu ponto de parada diário atualmente -, lembrei daquele momento em Recife. Lembrei do ângulo em que via minhas pernas apoiadas na parede, e também do meu pensamento em meio àquele refresco quando se sai de um calor intenso. Eu olhava meus pés, esses que hoje ainda me aguentam, sem imaginar que um deles estaria na resposta do que eu me perguntava: "até quando?"

No coração, ainda que extremamente grato pela experiência, um anseio carregava dentro de mim. Desses que a gente só ouve quando está bem em silêncio e parada: "quando vou finalmente parar e descansar e pertencer a algo que realmente me contenha?" Você já conheceu essa vozinha que existe aí dentro de você? rs... Ela me acompanhava constantemente, mesmo em momentos felizes e incríveis. Mas, naquela tarde eu decidi conversar com ela, assim mesmo, de pernas pro ar. E é assim que, ao iniciar o diálogo com essa pergunta, ficamos: de pernas pro ar. Ela mexe demais com o que somos...

Eu deixei toda a ansiedade me consumir. Chorei. Questionei. Ansiei por um dia me encontrar em uma rotina normal, com coisas simples e verdadeiramente 'cotidianas'. Experimentava coisas que considerava - e que muitos consideram - grandiosas demais, em tão pouco tempo... A preocupação que as pessoas tinham quanto a minha vida era quanto à companhia - ou melhor, a falta de uma. Ficava muito sozinha. Mas, essa era a parte que menos importava pra mim. E, na maior parte do tempo, era até o mais legal! rs... Porém, algo em mim queria parar um pouco, assimilar... Onde eu estava indo? Seria assim até quando?

Em meio ao diálogo, comecei a rir, mas a rir muito sozinha , como fiz ao lembrar no parque, e como estou fazendo agora escrevendo hahahahaha... (isso era algo comum nesses momentos que eu tinha). Eu ri pensando o quanto eu ia/vou desejar aquele momento quando tivesse três pestes na minha frente gritando, ranhentos e e eufóricos pra criar, em meio a mamadeiras, birras... (E pensei isso lembrando da minha cunhada Clá, a mulher mais guerreira que conheço e tanto admiro... um desafio de vida seguir seu exemplo, criando essas minipessoas especiais da minha vida tão bem e educadamente!). Ah... "eu vou querer me teletransportar para cá", foi o que eu pensei.

Foi assim que o diálogo acabou bem. E sempre vai acabar bem, porque sempre chego à conclusão de que tem tempo pra tudo nessa vida, seja qual for o momento que eu estiver vivendo, se eu puder ter esse meu ponto de parada e diálogo com a vozinha que incomoda! Hoje, já experimento essa verdadeira esperança de que tudo vai fazer sentido. E,  desde que tive o primeiro ponto de parada - bem forçado e acidental -, já tenho compreendido muitas coisas, processado muitas outras... E cada dia algo a mais faz sentido, se completa na história, e responde anseios antigos escondidos em memórias tão nítidas à minha vida.

Hoje, no parque pensei: "quem sabe, quando eu chegar em casa eu não coloque minhas pernas pro ar pra variar...". Ainda não tenho as 3 pestes, mas já tenho o sentido de estar onde se deve estar que me perguntava naquela tarde quente. E, enquanto tiver um ponto pra parar, literalmente ou não, de pernas pro ar, poderei dialogar com o qualquer coisa que me incomodar e descansar (principalmente se alguém ligar o ar kkk).





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