sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Datas

2 de março de 1989
dezembro de 1995
julho de 1996
janeiro de 2000
26 julho de 2006
26 de março de 2007
30 de julho de 2009
junho de 2010
janeiro de 2011
8 de agosto de 2011
02 de dezembro de 2012
26 de janeiro de 2013
26 de dezembro de 2013
29 de dezembro de 2014


Às vezes, me sinto mais determinada por datas do que por qualquer descrição adjetiva. Esses números vão e vem em minha cabeça, lembrando-me de marco, marcas de quem sou, fui, do que fiz ou do que aconteceu a mim. 

Por esses dias comemorei 2 anos da conquista de um sonho e 1 mês da queda de uma pedra. Comemorações são importantes, não são? Por que comemoramos feriados, conquistas...? Bem, eu penso que fazemos isso para não nos permitirmos esquecer dos marcos da vida. E a vida por si só já é um marco afinal, mesmo a pessoa menos festeira sabe muito bem a data do seu aniversário.

Eu sempre fui muito boa com datas. Sei de cor o aniversário de quase todos meus amigos e da minha família e de seus casamentos. Comumente, sei em que fase da lua estamos, e nunca me esqueço dos mil afazeres marcados na minha agenda mental. Mas, talvez isso não fosse emocionante o bastante para mim, e no decorrer do tempo, adicionei mais alguns marcos, como acidentes, quebra de braço(s), eventos e festas, namoros, viagens, mudanças de casa, escola, fases...

Em suma, as datas nos ensinam a lembrar. Ao recordarmos alguns desses marcos, ficamos cheios de alegria e queremos celebrar. Alguns outros, nos servem de lições aprendidas, e até como um separador de águas: de quem éramos antes e de quem nos tornamos depois. E então, esta semana me deparei com esses dois: 2 anos da minha ida a Noruega - experiência surreal e sonho realizado que não me canso de falar ( e vai ser bem aquelas histórias que os meus filhos vão reclamar... "lá vem a história da Aurora Boreal..." rs) - e um mês de um acidente feio que, por estar tão próximo ainda, mal consigo ver claramente tudo o que ele vai significar, como vai impactar na minha vida e sequer como serei a partir dele. 

Datas são relevantes, pois, de alguma maneira, nos marcam, nos determinam. Algumas se tornam mais importantes que outras. E, nesse momento, em que duas delas se encontraram para discutir sobre minha vida, parece que eu só fiquei olhando a conversa, um tanto perplexa... No debate, 26/01/13 constatou que só agora eu poderia comemorar em paz e que não foi responsável por tudo o que veio depois; 29/12/14 disse que estava, até então, com perda de memória, mas que, aos poucos, alguns fatos começam a fazer sentido... Por fim, concordaram que a primeira lição reside no tempo entre elas, nas outras datas que entre elas delimitaram uma fase da minha vida. Será que elas sabiam que eu as observava conversando? 

Talvez esse próprio ponto de parada seja um marco mais para frente... É difícil saber ao certo, ainda é muito recente. Mas, neste momento, ao olhar para o recheio do sanduíche de 26/01/13 e 29/12/14 vai me fazer compreender um pouco mais sobre a saúde da minha vida, sobre o que preencheu essa fase. O bom de ter uma boa memória para datas é que eu nunca esqueço as mais belas experiências nem as mais duras lições que, em conjunto, me firmam os passos e me lembram de quem sou.

Agora, vai, me diz: quais são suas datas? Diga-me quais são e te direi quem és!


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Edição limitada

Cem dias entre teto e cama. Talvez um pouco mais do que isso. Assim como no livro do Amyr. Cem dias e mais alguns entre dois limites. No meu caso, acrescenta-se uma porcentagem razoável de exagero, afinal, sei que terei momentos fora do teto e da cama. Mas não tenho dúvidas de que eles serão a maior parte do tempo os meus delimitadores... acima e abaixo.

Desde pequena, sempre gostava de me imaginar com super-poderes, meio super-herói... voando, respirando debaixo da água, salvando o dia, salvando o mundo, vivendo por algo maior, ora uma cientista ora uma desbravadora que descobre algo que muda a história da humanidade... Hoje eu considerei, pela primeira vez, as minhas limitações. Não tenho os super-poderes que sonhei. Ao mesmo tempo, consegui alcançar muitas coisas extraordinárias. Talvez foi assim que os tão incríveis poderes permaneceram em mim, ganhando uma nova forma de existência na minha vida adulta: sempre tendo em vista alguma maneira de ainda me encontrar especial ou visionária ou com uma missão única.

Mas agora parada no que alguns chamariam de "limitação"- como se antes não fosse - a moeda caiu de coroa para baixo, e me perguntei: e se minha vida não for para marcar o Mundo com um grande feito meu? E se eu for, na realidade, só mais uma pessoa normal? E se, na história do super-herói, eu faço parte de quem precisa de ajuda, de quem é salva e resgatada?

Para quem sempre acreditou que o limite do céu poderia ser, na verdade, mais que o Espaço, e que, bem fundo no mar, existe um novo mundo a se descobrir, bem como toda a Terra possui uma extensão imensa de fronteiras e lugares para se explorar, a minha mente nunca se aquietou sob um teto - nem mesmo quando isso era mais inatingível do que agora, em minha atual vida livre e 'independente' de adulta. Na mania de escrever na agenda todo dia onde eu estou, observei que nos últimos dois anos, 58% dos meus dias eu passei sobre teto e cama que não eram os meus: nem na minha casa em São Paulo nem em Campinas. E, sinceramente, sequer passei muito tempo sob tetos...

Você pode achar normal tudo isso. Mas mesmo que cômico é também fatídico. Uma adulta descobrindo que não possui super-poderes. E a dor do choque da queda não me espantou tanto quanto a dor me descobrir falível, quebrável, vencível... limitada. Pensar que eu não sou tão ilimitada quanto pensava ser foi pior que descobrir que o Papai Noel não existe. Foi como ver pela primeira vez que o que o mágico fez foi um truque. E é doloroso me achar assim, infantil, ingênua... Será que por tanto tempo eu vivi parcialmente na realidade? E, portanto, ser tão sonhadora é algo ruim?

Então, voltando-me à história do herói... Por que será que sempre queremos ser o protagonista com super-poderes? Sonhamos em ser mais do que somos, sempre melhores. Queremos solução e queremos trazê-la por nossas próprias mãos. Mas, ainda que o herói leve o nome do filme, os aplausos e a mocinha, a aventura nunca acaba, o vilão nunca pára de o perseguir... Talvez feliz mesmo seja quem foi resgatado, quem ia ser morto e ganhou nova chance, quem viveu pra depois contar o que mudou para sempre sua história.

Talvez o teto ao qual constantemente tenho encarado, e a cama da qual necessito para sustentar meu corpo em paz estejam aqui para me lembrar disso. Eu sou limitada. Meu lugar não é sob novas aventuras e perigos todo dia. Nem sempre eu vou vencer. Sou mortal. Eu não voo nem respiro debaixo d'água, nem luto contra os bandidos. Meus ossos quebram. Há acidentes sem volta. Eu choro. Eu posso parar.

Então passo a considerar que isso não vai me impedir de viver coisas extraordinárias e ter experiências incríveis. Parar, às vezes, é o que vai fazer o resgate acontecer. Estar em um mesmo lugar faz a salvação chegar. A limitação sempre existiu, ainda que a gente só a enxergue quando estamos parados. É aliviador saber que eu não tenho que salvar o dia. Só se salva o que é valioso, e sou eu quem precisa de resgate. Assim, sinto-me limitada sem me sentir mal por não ser a heroína. Pelo contrário, especial: sou a mocinha que mesmo sem poderes pode voar nos braços do herói, que mesmo sem matar os vilões, sente o alívio e a paz de vencer. É se encontrar como uma edição limitada: com data de expiração, mas muito bem apreciada. Não preciso mais de super-poderes. Minha história pode não virar filme, mas aqui e assim dá pra se viver coisas inacreditáveis também.

Da menina que ainda acredita em ir pro Espaço e desbravar o Mundo, mas que está aprendendo a apreciar a história sem ser a protagonista.




domingo, 18 de janeiro de 2015

Segundas-feiras



Segundas-feiras... Sempre me rendem histórias pra contar...
"Fui surpreendido por uma onda na contramão, não tive como escapar e levei um banho gelado. O cabelo pingando, as roupas encharcadas e um fiozinho de água escorrendo pela nuca e descendo as costas, por dentro da blusa, coroavam uma típica segunda-feira. Como um gato molhado, me enxuguei chacoalhando a cabeça, para não tirar as mãos dos remos.

O trabalho começou cedo, ainda no escuro, após um sublime café da manhã, que levou quarenta minutos para ser consumido. O mar estava agitado novamente, e o barômetro, caindo aos poucos, anunciava uma nova depressão. Mas não me incomodava mais com isso.

Na verdade, o grande problema não era a força do mar, mas sua direção; enquanto as coisas continuassem como estavam, e eu pudesse remar na boa direção, não teria com que me preocupar."
(Cem dias entre céu e mar, Amyr Klink.) 

Segunda vez que uma segunda-feira marca minha história com um acidente. Ambas as vezes, fui parada para reaprender a ver a vida com novos olhos. Da primeira vez, com 18 anos, competitiva, tentando fazer meu dia melhor. Agora, com 25 anos, irrequieta, tentando ter 100% de aproveitamento do dia. Em ambas, prepotente. Hoje, me encontro em meu segundo grande ponto de parada. E sinto-me sortuda. Nem todo mundo tem essa chance... Momento de pôr no trilho o trem que descarrilhou.

Era segunda-feira, março de 2007: rompimento do meu LCP (Ligamento cruzado posterior) do joelho esquerdo em um jogo de handball nas Calouríadas da Universidade. Segunda-feira, dezembro de 2014: fraturas múltiplas do calcâneo ao pular de uma pedra em um rio. Mudei muito entre esses acidentes. Passei a ser apaixonada pela vida e a não ver mais as segundas-feiras como algo penoso. Cada dia é um novo começo, temperado por inéditas experiências e passível à escrita de histórias inigualáveis. Mas nem sempre enxerguei assim...

Entretanto, incrivelmente, sinto que lidei melhor com o acidente da primeira vez. Daquela vez, algo me parou, talvez para eu aprender a ver a beleza da vida todo dia. Foi como se eu não ligasse, como se o filme nem fosse mesmo tão interessante... Sabia que ia passar e eu ia superar. Desta vez, foi como se cortassem o filme antes de chegar o final, e eu não estava o assistindo, eu era parte dele! Talvez tenha sido a velocidade com que eu vinha, talvez foi a intensidade desregrada. Não sei. Sei que 'fui surpreendida por uma onda na contramão, não tive como escapar e levei um banho gelado. E pode ser que na verdade, o grande problema não seja a força do mar, mas sua direção'.

O problema nunca foi o acidente, mas a maneira como dali em diante lidei com ele. Quero que esse ponto de parada me relembre e aponte a boa direção para quando eu voltar a remar... Segundas-feiras, terças, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos, que em quaisquer dias, com mar agitado ou não, que haja mais clareza...Em 2007, aprendi a valorizar cada dia. Em 2014/2015, quero aprender a lidar com as ondas que virão, mais uma vez amadurecendo com essa situação.




Gira-gira



"Movimento Circular Uniforme". Foi um dentre outros tolos pensamentos que tive no momento: em meio a uma boa leitura durante a tarde, minhas pálpebras pesaram e resolvi fechá-las. Talvez fosse o calor, ou algum resquício dos remédios do pós-cirúrgico, mas tudo começou a rodar. O que uma pessoa normal pensaria? "Uma crise de labirintite.", "Tontura", "Devo chamar alguém!"... É, não foi o que eu pensei... "Uh!Tudo tá girando!"," Movimento Circular Uniforme...". Sempre gostei de Física.

Enquanto tudo girava, minha decisão foi continuar de olhos fechados e aproveitar. Estava bom... Sabe aquela sensação de êxtase quando gente está no ápice da velocidade no gira-gira? Sempre gostei de balanço, mas meu brinquedo favorito nos parquinhos sempre foi o gira-gira. Creio que por causa dessa sensação, meio de outro planeta. E ali estava, sentindo-a de novo, sem sair do lugar...

E obviamente, isso me fez pensar, o que está me dando impulso? E, mesmo que esteja boa a sensação, quando pára de rodar? Aqui, parada, cheguei a mais uma conclusão. Nos últimos 2 anos, realizei muitas coisas e foi incrível, como a sensação de êxtase desse brinquedo. Mas concluí que isso não me levou muito adiante. Veja, realizei dois dos meus maiores sonhos: ver a Aurora Boreal e aprender a mergulhar. Além disso, tive a oportunidade de conhecer mil lugares e viajar mais do que em todos os outros anos da minha vida somados. Eu só girei. Gostei. MUITO! Mas só girei... Digo isso, sem frustração, e também só consegui enxergar agora que eu estou parada.

Tem mais uma brincadeira assim: aquela de girar em um cabo de vassoura e sair correndo para realizar uma tarefa, como acertar uma bola no gol ou levar uma colher com ovo atravessando um campo de futebol. É interessante pensar que a gente tem dificuldade de realizar algumas tarefas se vimos de consecutivos giros, de movimentos contínuos... Meio tontos, cambaleamos e, ainda que tenhamos os olhos fixos no alvo, não conseguimos. Mal paramos em pé!

Hoje, em uma leitura da obra de Amyr Klink, "Cem dias entre céu e mar", em que fala sobre sua travessia pelo Atlântico Sul, da África (Namíbia) ao Brasil, me deparei com o
seguinte trecho:
"Se, de um lado, tudo estava em movimento, brusco ou lento, o barco balançando, as ondas correndo, ou as nuvens e os astros que discretos se moviam, por outro lado, descobri uma exceção - algo imóvel e estável -, a linha do horizonte. Única forma fixa no oceano, era dele que precisava para conseguir minhas posições, e, ao se encontrar perdido entre nuvens baixas ou escondido atrás de altas ondas, fazia-me sentir um pouco triste.
O horizonte, linha perfeita e segura, fronteira do destino que se renova eternamente e que abriga nossos objetivos, passou a ser meu ponto de apoio e companheiro de viagem. Enquanto estivesse à vista, sentia-me disposto e em segurança; mas, quando desaparecia ou tornava-se ondulado, sabia que era melhor amarrar bem os remos antes de ir dormir."
Será que me faltou esse horizonte nesses últimos tempos? Acredito que não. Tenho certeza de qual é meu Horizonte, meu ponto de apoio, meu Companheiro de viagem. E também creio que minhas referências não mudaram, vejo até que bem a possível direção a percorrer. Talvez o que eu precisava, quando não conseguia ver o horizonte e quando algumas ondas se formaram era ter amarrado os remos, ido dormir e descansar. Por um tempo, parar de remar. Pelo menos, até que revisse a linha estável, o horizonte, me informando bem a minha posição. Acho que só assim eu teria clareza da direção e não estaria tão extasiada nos mil e um giros que faziam minhas pernas cambalearem e as tarefas não serem realizadas tão bem.

Agora, no ponto de parada, ainda tenho o horizonte como referência. E sei que poderei remar na direção de momentos extasiantes de novo em breve. A lição é aprender a hora de parar e a hora de girar. Talvez assim eu realize a travessia que me cabe e chegue certeiramente ao destino final.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Afinal, você é homem ou rato?

Ou, melhor, "mulher ou rato?"

Não. Esse não é mais um texto com metáfora. Na história da vez, o rato existe. Ou pelo menos, existiu. E não... Não é mais uma narrativa sobre memórias antigas. O assunto é atual e, mais especificamente, sobre o que vivi nos últimos três dias.

Um rato entrou em casa. E onde ele quis se hospedar? A resposta não podia ser mais irônica: perto da única pessoa que não pode correr. Eu! A saga terminou hoje, e teve alguns momentos bem hilariantes como a minha mãe encurralada no banheiro com o bicho, gritando por quase 1 minuto (desculpa te entregar Mama, mas foi engraçado demais!). "Em quase 30 anos morando nessa casa... Nunca apareceu um rato aqui! Logo agora...", ela dizia pelo menos umas 3 vezes em cada um dos dias da aventura. 

Alguns homens, fazendo obras aqui perto nos advertiram que viram o tal do rato entrando aqui em casa pelo portão na segunda-feira. Meus pais revistaram tudo, e encontraram nada. E então, deixamos pra lá, esquecemos. "Eles devem ter se enganado. Viram errado". "Se o rato realmente entrou, já saiu de novo pra rua, fugiu.".

Mas, na madrugada de terça pra quarta, eu acordei com um barulho no lixo que fica no corredor entre a sala e o meu quarto. Ah, é, explicando... Eu moro casa no fundo da casa dos meus pais. Aqui fica meu quarto, com um banheiro e uma sala de estar. Na hora eu pensei: "será que é o rato?". Acendi a luz e vi ele, correu pra longe. Não, minto. Antes eu gritei. Gritei como uma donzela em filme de terror e chamei minha mãe. Pois é. Me senti uma criança patricinha, tão bizarra como as que inacreditavelmente existem-, tipo aquelas mini-misses - me arrepiam até a espinha! Bati a porta (acessível aos meus braços, já que não posso andar) e gritei que nem uma ridícula. Enfim, óbvio, que meu pai olhou tudo, não achou, e não acreditou em mim."Você devia estar sonhando".Rrrrrr...!!!

Minha mãe, nesse ponto de parada em meio a madrugada, de sonho com pesadelo, realidade e fantasia, me veio na imagem de uma fiel escudeira guerreira, se voluntariando a dormir comigo no meu quarto. Já meu pai fez a parte importante de toda saga: a do complicador que gera aflição no público (ele REALMENTE não acreditou em mim!) e depois do herói exterminador, perseguindo e matando o ser com uma barra de alumínio após 24h utilizando as mais variadas armas: mata insetos (pois é, vai entender...), veneno pra rato (depois que ele passou a acreditar vendo a madeira da porta roída), ratoeira com salame e veneno pra cupim (?!).

Bem, o que eu aprendi nessa loucura e noites mal dormidas além de me sentir com mãos atadas, ou melhor, pés atados? Não sei. Sei que ontem, só conseguia pensar em como me identifiquei com o pobre rato. Uma rata... Sem poder sair. Encurralada. Esse ponto de parada que estou vivendo seria uma redoma? É isso? Porque o sentimento era esse. Agonia e limitação.

Sim... estou usando a história do rato pra desabafar: me desesperei! Muito. "Pés atados"... Não foi como a inconformação do choque assim que o acidente aconteceu, mas pela impotência. Queria sumir. Não estar sentada, aqui, o dia todo... E confesso, nos dias de basquete, a coisa pega mais. Às vezes, fecho o olho, só pra lembrar o barulho da quadra... O mesmo que senti falta por 5 anos. E sei lá quando vou poder ouvir de novo. Pelo menos, ouvir. Jogar, ainda é tudo muito obscuro pra afirmar. E foi bem isso que o médico me disse ontem cedo, no retorno ao hospital. Meu caso é grave, sem garantias. Antecipamos a fisioterapia. Aliás, já marcada para amanhã.

E, da mesma maneira que a saga do rato terminou - e não me refiro à morte do coitado encurralado, mas à experiência, agora já relembrada de maneira cômica - que me rendeu mais uma vivência com meus pais, mais uma história compartilhada e o aprendizado da importância e a benção de ter pessoas ao lado, somado ao alívio de encontrar o que assombrava e a linda consequência de uma bela arrumação de todas as minhas coisas que por tanto tempo posteguei: assim desejo que o sentimento de encurralada se dissipe... Com um bom balanço final.

Sei que hora ou outra vou desanimar, de novo, mas que isso seja cada vez menos intenso. Afinal, ontem me senti como um rato. E, talvez, não só por me encontrar sem saída da atual situação (pelo menos, não como eu queria: voltando no tempo e desfazendo a tola ideia de pular da pedra), mas pela sensação de me sentir fraca onde eu sempre fui forte, e de me sentir covarde quando eu sempre fui corajosa, de olhar pra uma situação que eu sei que posso aguentar, que dá pra encarar, mas estar reagindo pessimamente. Porque essa sensação de não querer enfrentar algo claramente é uma das razões que me trouxe e que me parou aqui. É algo que dá pra persistir, ter garra e força de vontade e superar... Existem tantas histórias para me inspirar, tantos casos piores. Ainda mais com a fé, a certeza que tenho, de que toda essa dificuldade traz persistência, que, por sua vez, traz maturidade e crescimento. Creio que, lá na frente, assim como na saga com o rato, eu vou olhar pra trás e contar toda essa história com um sorriso no rosto... Posso ouvir, nesse ponto de parada, constantemente um sussurro, dizendo:

"Afinal, você é a Alê ou um rato?"

Agora, é prosseguir. Quem nunca teve medo? Quem nunca quis apenas se distrair, esquecer ou fugir de uma situação em que se pôs ou na qual foi colocado, encurralado? Às vezes, não temos esse luxo. Resta-nos, mesmo, só a missão de enfrentar e lidar com os 'ratos' que nos assombram. Dar um passo de cada vez. Amadurecer, como deve ser. Bem, no meu caso, o passo literalmente vai demorar um pouco, mas até lá tem muito chão!



PS.: Hoje comecei a ver um seriado chamado "Under the dome" em que as pessoas ficam encurraladas por um campo, aparentemente magnético. Interessante. Enfim, Freud explica... rs. Mas vale a pena e fica a dica, já que tá no tema! ;)


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Como eu parei aqui



Talvez seja interessante explicar como eu cheguei aqui, ao ponto de parada. Mas... hm... afinal, como eu parei aqui? 

Alguns acham que foi apenas mais uma de minhas peripécias e aventuras, me rendendo um pé quebrado, esperando logo eu de volta, com toda energia! Pode-se ver assim. E pode ser que seja assim... Tomara! Certamente pretendo voltar melhor, aprendendo com o que aconteceu. E pode ser que contar o que foi o acidente esclareça, mas não responde à pergunta... A quebra do osso foi o que me trouxe aqui e, não o "como". Por isso,  é preciso entender como eu REALMENTE parei aqui e a história começa um pouco antes...

Quando alguém pára, normalmente é porque está vindo de algum lugar... E eu estava vindo da correria da qual você talvez também faça parte. Vivi experiências inéditas nos últimos anos, o que poderia até nomear de uma vida realmente autêntica, com desprendimento e liberdade... Mas, de alguma maneira, agora, parada, mal sei por onde começar a guardar todos os sonhos realizados que trago na bagagem... Parece longe a última vez que eu fiz uma parada (e me refiro a parar rs).

Ok... Pular de uma pedra nem sempre é uma boa ideia. Mas dessa vez parecia! Pelo menos, estava sendo a vez mais cautelosa... Observei outros pulando, nadei, calculei... E, não, não simplesmente quebrei o pé - afinal, nada comigo pode ser comum: fraturei em diversos lugares o calcâneo, um osso bem complicadinho se você for pesquisar... Fiz cirurgia, coloquei placa e pinos. Comecei com o pé direito o ano! Novinho em folha... Quatro meses sem relar o pé no chão. E sem garantia do quanto vai dar pra recuperar.

Para quem estava sempre fazendo algo incrível, aventureiro, voando alto, indo daqui pra lá, viajando milhas por semana entre outras mil correrias, e, agora, em questão de dias, estar satisfeita se apenas voltar a colocar o pé no chão normalmente, dar um passo sem quaisquer ajudas - pessoas ou muletas - e andar bem alguns metros é uma grande parada. Digo mais, tem sido uma parada brusca... Um choque com muitas perdas de coisas que eu amo, talvez temporárias, mas talvez não. Isso acabou comigo...

Como eu parei aqui? Em choque. Choque brusco. Me desmontou. E você pode estar achando exagero. Realmente, não é uma história tão chocante à primeira vista - se você não sabe que o meu caso de fratura está entre os 20% mais graves que precisam de operação. Claro, não foi um caso como o da Laís Souza ou o do Michael Schumacher (e eu tive que pesquisar pra escrever esse nome direito). Mas por que cada vez mais as notícias precisam ser tão chocantes para valorizarmos as coisas importantes hoje? 

Não estou sendo dramática. Sei que podia ser mil vezes mais grave, que fui sortuda... Agora, eu consigo enxergar assim. Mas quando fui parada, estava tremendamente cega. [Foi assim que eu parei aqui...]. Prepotente e independente, perder o controle foi dolorido. E estava assim pela tendência, que todos nós temos, de ser feliz pelo que conquistamos, e nessas conquistas nos firmarmos. Amigo... tenho uma má notícia pra você... Aí não é um solo muito firme... Vai por mim.

Foi bom não precisar ter sido pior para eu voltar a ver. Estou aprendendo. E sei que vai passar. Entretanto, para quem leva uma vida intensa, agitada e corriqueira, é difícil entender que algumas coisas a gente só enxerga parado. E, ao "diminuir o ritmo" que muitos tentam, do que eu mesma estava me dando conta ser necessário, não é suficiente. Eu diria até ser ilusão. Uma boa caminhada, em uma trilha, não é aquela em que você oscila o ritmo. Mas em que você faz boas paradas...

Não desejo o que estou passando para ninguém. Sei que nem todos precisam aprender por experiência. Basta ouvir e ser sábio. Ou em outras palavras, aprendam com o caminho trilhado por outros ao escolher a trilha que vai seguir...  Se quiser aprender comigo, aqui vou deixando a minha história. E é meu convidado. Afinal, a parada foi brusca comigo, mas não precisa ser com você.

Pode descansar um pouco. Sinta, às vezes, sem medo, o alívio do peso que carrega. Faça um intervalo. Sacie sua sede. Aprecie as vistas distribuídas ao longo do caminho. Experimente momentos de eternidade. Não diminua o ritmo. Faça mais paradas. Foi o que eu aprendi.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Momentos de eternidade



Meus olhos abriram. Sem alarme. Sem despertador. Sem barulhos na rua. Que horas seriam? "Devo ter dormido demais...", pensei. No celular, 9 da manhã. Sorri comigo mesma... Pela persiana, meus olhos acompanharam um pequeno feixe de luz que ousava entrar por um mal calculado espaço entre a cortina metálica e a janela no quarto aquecido. Para o meu espanto, sua natureza era artificial: lá fora, as luzes dos postes estavam acesas. E a rua, escura. Como se no mesmo descuido que eu, o Sol se esquecera de despertar... Estava de férias, a incontáveis kilômetros de casa, em estação oposta. E novamente retornava a me esparramar no luxo de uma cama macia assim como nas mais algumas horas de sono desprogramado... Lá, era assim. Em pleno fevereiro, ao ar livre até altas horas. Maior parte do tempo escuro. A neve mais limpa, brilhante e fofa reluzia sem ganhar atenção. Meus olhos ficavam em súplica atentos ao céu. O frio era vaidade... E foi assim, dias em que realizei um dos meus maiores sonhos, senão o maior. Ver as luzes dançantes: verdes, vermelhos... A cada dia mais vida, mais intensas... Sabiam que eu as esperava.

Naquele momento, ao deitar novamente minha cabeça no travesseiro e fechar meus olhos, um último pensamento ou sentimento tomava conta de mim: esse sonho parece não ter fim... E foi ali, sem sinal, sem satisfações a dar, a milhas de casa, completamente desconhecida, literalmente no Pólo Norte, eu provei da mais incrível e indescritível sensação de se sentir bem sendo uma completa estranha num lugar que não me pertencia. Paz atemporal...

Posso tentar narrar esses momentos que já experimentei. E será o que mais perto do que em palavras poderei expressar. Não ouso fazer poesia. Poesia é me encontrar lá. Nesse momento que não é tempo, é lugar... Às vezes me pergunto se alguém já se sentiu assim... Bem, eu estou talvez no oposto de qualquer liberdade de ser 'desconhecida' ou zanzar por lugares inéditos. Mas, aqui, no ponto de parada, quando menos esperava revivi algo assim.

Há alguns dias atrás, acordei, despertando de um sonho. Um sonho real, porque eu realizei. Revivendo um momento recente em que eu me encontrava a beira do mar, sentada na areia, de olhos fechados, sentindo a brisa da manhã ainda recente desenhar o formato do meu corpo no chão da areia. Ali mesmo me estendia, me rendia após alguns minutos de caminhada e corrida. Quase ninguém passava, apenas aqueles de passagem. E quem passava devia pensar que louca, apenas de bikini, sem lenço nem documento, em uma praia vazia e silenciosa se largava assim na areia... Mas eu pouco me importava. Sentia-me à areia camuflada. Havia tido minha conversa com o mar logo cedo. Agora era vez de ouvir o que as ondas iriam dialogar. O Sol me aquecia, como algo a me lembrar que cada pedaço do meu corpo estava onde devia estar. Assim como eu. Ali eu pertencia. Mais uma vez, aquele momento se fez lugar...

Eu chamo esses momentos-lugares de momentos de eternidade. Eles me parecem relapsos divinos de paz, gotas que escassamente se acomodam nas curvas do tempo corrido das nossas vidas... Não sei como fazê-los acontecer, nem mesmo, como recentemente, revivê-los. O que concluí é que não importa "onde" estou, nem "quando"..., mas que, em algum lugar da fórmula, talvez próximo ao "como", alguma incógnita constante que se refira ao movimento é estar em um ponto de parada.

Ponto de Parada


"- Oi! Tudo bem?
- Tudo e com você? Como você está?
- Ah... Na correria! Sabe como é..."

Tá. Cliché começar meu texto assim. Mas quem nunca falou isso? Ou melhor, conte no dedo as raras vezes em que a conversa não foi assim... Mais cliché que esse diálogo, impossível.

Escrevo isso, sem me esquivar. Tem sido assim. E não me refiro à "falta de profundidade nos relacionamentos atuais"... me refiro à correria. Nunca paro. Afinal, "A vida corre!", "O tempo passa", "O tempo urge!", "Não há tempo a perder!". Frases como essas talvez tenham me influenciado sem eu perceber, me levando a me desesperar quando o dia não parece render ou o tempo parece ter sido desperdiçado...Mas, por que corremos tanto?

A ideia de que começamos a morrer assim que nascemos, de que respiramos e a oxigenação nos faz envelhecer a cada segundo, e outras ideias similares, me faz querer aproveitar cada gotinha da ampulheta e sempre fazer tudo valer a pena. Bem, pelo menos, é o que eu pareço estar fazendo mais intensamente ainda nesses últimos 2 anos. Isso, unido ao meu impulso e crença de viver extraordinariamente tudo, me rendeu experiências surreais, verdadeiras histórias pra vida... Mas chego a um ponto de parada, não por escolha própria, mas pelo o que talvez você chame de acidente, eventualidade, destino, azar, sorte, castigo, karma, fato, ocorrido, consequência etc. Eu decidi chamar PONTO DE PARADA, e só sei que sinto que fui trazida para aqui. E tive a sorte de ter sido trazida para o meu porto seguro.

Então, criei esse blog, compartilhando o que estou vivendo, ora na tentativa de aprender decifrando o que está acontecendo ora tentando expor em palavras talvez piadas, experiências, lições e desabafos a partir daqui. Você é meu convidado. Sempre que quiser. É bem vindo a vir e também parar um pouco. Porque, às vezes, o melhor é parar.

"- Oi! Tudo bem?
- Tudo e com você? Como você está?
- Hm... parada."