Tá, organização nunca foi meu forte. Não essa "padrão", sabe, "tudo no seu aparente devido lugar" rs... Desde que me lembro, nunca me incomodei com coisas pelos chão. Até mesmo acho que algumas, eu mesma coloco assim espalhadas... Meias, chaves, livros, copo, mochila, papéis, chinelo... Alguns tem mania de suspender e elevar as coisas. "Isso não pertence ao chão". Outros acham que não é natural, ignorando que na natureza o cair ao chão gera vida. Bem, esses incômodos ou essas manias nunca foram minha realidade. E, além de não me incomodar, e eu até mesmo me utilizar do chão como armário informal, diria que eu não me importo tanto com ele assim. Pelo menos não até a última sexta-feira. Ao olhar coisas pelo chão, fui surpreendida!
Calma lá! hahaha...Não era nada novo. Nada que já não estivesse lá há um tempo. Talvez todos os anos esteve ali. Mas até então, eram apenas "coisas pelo chão". Sabe aquele momento em que, por alguma razão, paramos e começamos a olhar no chão sujeiras, detalhes, piso, rejunte, formigas, folhas, flores... Então... Mas, ainda assim, esse parar e reparar algo que nunca havia visto não significa que elas ganham valor ou sentido pra gente. Pensa bem, pensa bem mesmo... Já percebeu que às vezes olhamos coisas à nossa volta como "coisas pelo chão"? Vemos, mas pouco nos importamos...
Certa vez, comentei com um amigo "nossa, olha como tem o carro X aqui". Ele me disse que eu tava enganada, que, na verdade eu havia tomado conhecimento daquele carro - o qual meu pai havia acabado de comprar - e, assim, ganhou sentido e notoriedade para mim. Não é que havia mais dele, mas eu reparava nele mais que em outros agora, pela proximidade e pelo significado relevante (podia ser meu pai passando! rs). E foi isso o que acho que aconteceu com a surpresa que vi ao chão...
Estão curiosos? rs... Eram "coisas de árvore". É. Isso aí. Nem semente eu, antes, reparava que eram. Mas, como muitas coisas na vida, a relevância não está no "o que" mas no "por que", então... por que elas só fazem sentido agora pra mim? Por que a surpresa? Porque há pouco tempo que ganharam importância. Sementes de Ipê. Sempre vi e admirei essa árvores de flores amarelas em frente de casa. Minha mãe já cansou de me falar desse ipê... Suas sementes, neste mês de outubro, e em todos os anos morando na mesma casa, sempre caíram ali, pelo chão. Quantas vezes passei por elas sem as reparar!
MAS agora que a ideia de plantar essa árvore se tornou significativa para mim, há poucas semanas, ao ver meu quintal forrado por suas sementes - as que eu procurava - WOW!!! Sensação de ser presenteada, meu coração acelerou até! rs Que demais! Fiquei extasiada! Foi assim que as sementinhas dos ipês me ensinaram uma coisa: o olhar vai além do enxergar, ver, perceber, observar... Algumas coisas na vida, vão pelo chão, estão sempre ali, na nossa passagem, e até mesmo em pontos de parada cotidianos. Porém, algumas delas, em um momento único, específico e apropriado, ganham todo um novo sentido. Ao olhá-las, nesse novo momento instaurado, ficamos extasiados, como um presente não esperado...
Essa sensação é boa demais. E não há planejamento, nem estratégia, nem organização que preveja isso. Elas acontecem. Apenas deixemos nossos corações abertos....
Nesse ano, não foram só as sementinhas de Ipê que ganharam novo significado. Muito do que eu via e com que estava acostumada a me deparar pelo caminho, tornaram-se presentes e tomaram meu coração de maneira indescritível. Essas sementinhas eu guardo bem dentro do peito, mesmo que como "coisas pelo chão", elas nunca mais perderão tamanho significado que agora têm para mim. E deixo-as livres como são, naturais como as encontrei, bem onde estão. Não sou presa a manias, nem me incomoda tê-las pelo caminho. Algumas, eu mesma ali deixei. E, como disse, nunca precisei de organização.
Aos bons entendedores ;)
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
De pernas pro ar
Não foi há muito tempo, parece... Ainda que tenha sido. Me encontrava ali, refugiada numa cama de hotel, salva do calor de Recife pelo ar condicionado, com as pernas pro ar apoiadas na parede após fazer o usual tour de "aproveitamento da oportunidade de se viajar a trabalho". Algumas da tantas memórias eu relembro quase que nitidamente. Como essa.
Eu já viajava há quase dois anos, a trabalho, em 75% dos meus fins de semana - e quando tirava férias era até mais intenso... A vida de idas e vindas era a rotina. Não usual era o basquete de terça e quinta, o mercado da segunda. Esses tinham a função de eu não viver tão a parte do mundo, me lembrando que os dias da semana existiam. É espantoso olhar o que eu vivia. Sim, espantoso. Ainda que haja uma plateia a elogiar e querer essa vida, e hoje, parada, perguntam quando eu volto àquela "rotina", o que eu vivia era muito louco. Talvez admiram as fotos, a liberdade de se ir e vir e voar e viajar... Eu também admiro, e é muito lindo. Mas... tem sempre o "mas".
Hoje saí andando por uma tarde bem quente aqui na cidade, na qual, agora, não sou visitante, mas moradora. Tão quente que, ao sentar no parque - eleito meu ponto de parada diário atualmente -, lembrei daquele momento em Recife. Lembrei do ângulo em que via minhas pernas apoiadas na parede, e também do meu pensamento em meio àquele refresco quando se sai de um calor intenso. Eu olhava meus pés, esses que hoje ainda me aguentam, sem imaginar que um deles estaria na resposta do que eu me perguntava: "até quando?"
No coração, ainda que extremamente grato pela experiência, um anseio carregava dentro de mim. Desses que a gente só ouve quando está bem em silêncio e parada: "quando vou finalmente parar e descansar e pertencer a algo que realmente me contenha?" Você já conheceu essa vozinha que existe aí dentro de você? rs... Ela me acompanhava constantemente, mesmo em momentos felizes e incríveis. Mas, naquela tarde eu decidi conversar com ela, assim mesmo, de pernas pro ar. E é assim que, ao iniciar o diálogo com essa pergunta, ficamos: de pernas pro ar. Ela mexe demais com o que somos...
Eu deixei toda a ansiedade me consumir. Chorei. Questionei. Ansiei por um dia me encontrar em uma rotina normal, com coisas simples e verdadeiramente 'cotidianas'. Experimentava coisas que considerava - e que muitos consideram - grandiosas demais, em tão pouco tempo... A preocupação que as pessoas tinham quanto a minha vida era quanto à companhia - ou melhor, a falta de uma. Ficava muito sozinha. Mas, essa era a parte que menos importava pra mim. E, na maior parte do tempo, era até o mais legal! rs... Porém, algo em mim queria parar um pouco, assimilar... Onde eu estava indo? Seria assim até quando?
Em meio ao diálogo, comecei a rir, mas a rir muito sozinha , como fiz ao lembrar no parque, e como estou fazendo agora escrevendo hahahahaha... (isso era algo comum nesses momentos que eu tinha). Eu ri pensando o quanto eu ia/vou desejar aquele momento quando tivesse três pestes na minha frente gritando, ranhentos e e eufóricos pra criar, em meio a mamadeiras, birras... (E pensei isso lembrando da minha cunhada Clá, a mulher mais guerreira que conheço e tanto admiro... um desafio de vida seguir seu exemplo, criando essas minipessoas especiais da minha vida tão bem e educadamente!). Ah... "eu vou querer me teletransportar para cá", foi o que eu pensei.
Foi assim que o diálogo acabou bem. E sempre vai acabar bem, porque sempre chego à conclusão de que tem tempo pra tudo nessa vida, seja qual for o momento que eu estiver vivendo, se eu puder ter esse meu ponto de parada e diálogo com a vozinha que incomoda! Hoje, já experimento essa verdadeira esperança de que tudo vai fazer sentido. E, desde que tive o primeiro ponto de parada - bem forçado e acidental -, já tenho compreendido muitas coisas, processado muitas outras... E cada dia algo a mais faz sentido, se completa na história, e responde anseios antigos escondidos em memórias tão nítidas à minha vida.
Hoje, no parque pensei: "quem sabe, quando eu chegar em casa eu não coloque minhas pernas pro ar pra variar...". Ainda não tenho as 3 pestes, mas já tenho o sentido de estar onde se deve estar que me perguntava naquela tarde quente. E, enquanto tiver um ponto pra parar, literalmente ou não, de pernas pro ar, poderei dialogar com o qualquer coisa que me incomodar e descansar (principalmente se alguém ligar o ar kkk).
Eu já viajava há quase dois anos, a trabalho, em 75% dos meus fins de semana - e quando tirava férias era até mais intenso... A vida de idas e vindas era a rotina. Não usual era o basquete de terça e quinta, o mercado da segunda. Esses tinham a função de eu não viver tão a parte do mundo, me lembrando que os dias da semana existiam. É espantoso olhar o que eu vivia. Sim, espantoso. Ainda que haja uma plateia a elogiar e querer essa vida, e hoje, parada, perguntam quando eu volto àquela "rotina", o que eu vivia era muito louco. Talvez admiram as fotos, a liberdade de se ir e vir e voar e viajar... Eu também admiro, e é muito lindo. Mas... tem sempre o "mas".
Hoje saí andando por uma tarde bem quente aqui na cidade, na qual, agora, não sou visitante, mas moradora. Tão quente que, ao sentar no parque - eleito meu ponto de parada diário atualmente -, lembrei daquele momento em Recife. Lembrei do ângulo em que via minhas pernas apoiadas na parede, e também do meu pensamento em meio àquele refresco quando se sai de um calor intenso. Eu olhava meus pés, esses que hoje ainda me aguentam, sem imaginar que um deles estaria na resposta do que eu me perguntava: "até quando?"
No coração, ainda que extremamente grato pela experiência, um anseio carregava dentro de mim. Desses que a gente só ouve quando está bem em silêncio e parada: "quando vou finalmente parar e descansar e pertencer a algo que realmente me contenha?" Você já conheceu essa vozinha que existe aí dentro de você? rs... Ela me acompanhava constantemente, mesmo em momentos felizes e incríveis. Mas, naquela tarde eu decidi conversar com ela, assim mesmo, de pernas pro ar. E é assim que, ao iniciar o diálogo com essa pergunta, ficamos: de pernas pro ar. Ela mexe demais com o que somos...
Eu deixei toda a ansiedade me consumir. Chorei. Questionei. Ansiei por um dia me encontrar em uma rotina normal, com coisas simples e verdadeiramente 'cotidianas'. Experimentava coisas que considerava - e que muitos consideram - grandiosas demais, em tão pouco tempo... A preocupação que as pessoas tinham quanto a minha vida era quanto à companhia - ou melhor, a falta de uma. Ficava muito sozinha. Mas, essa era a parte que menos importava pra mim. E, na maior parte do tempo, era até o mais legal! rs... Porém, algo em mim queria parar um pouco, assimilar... Onde eu estava indo? Seria assim até quando?
Em meio ao diálogo, comecei a rir, mas a rir muito sozinha , como fiz ao lembrar no parque, e como estou fazendo agora escrevendo hahahahaha... (isso era algo comum nesses momentos que eu tinha). Eu ri pensando o quanto eu ia/vou desejar aquele momento quando tivesse três pestes na minha frente gritando, ranhentos e e eufóricos pra criar, em meio a mamadeiras, birras... (E pensei isso lembrando da minha cunhada Clá, a mulher mais guerreira que conheço e tanto admiro... um desafio de vida seguir seu exemplo, criando essas minipessoas especiais da minha vida tão bem e educadamente!). Ah... "eu vou querer me teletransportar para cá", foi o que eu pensei.
Foi assim que o diálogo acabou bem. E sempre vai acabar bem, porque sempre chego à conclusão de que tem tempo pra tudo nessa vida, seja qual for o momento que eu estiver vivendo, se eu puder ter esse meu ponto de parada e diálogo com a vozinha que incomoda! Hoje, já experimento essa verdadeira esperança de que tudo vai fazer sentido. E, desde que tive o primeiro ponto de parada - bem forçado e acidental -, já tenho compreendido muitas coisas, processado muitas outras... E cada dia algo a mais faz sentido, se completa na história, e responde anseios antigos escondidos em memórias tão nítidas à minha vida.
Hoje, no parque pensei: "quem sabe, quando eu chegar em casa eu não coloque minhas pernas pro ar pra variar...". Ainda não tenho as 3 pestes, mas já tenho o sentido de estar onde se deve estar que me perguntava naquela tarde quente. E, enquanto tiver um ponto pra parar, literalmente ou não, de pernas pro ar, poderei dialogar com o qualquer coisa que me incomodar e descansar (principalmente se alguém ligar o ar kkk).
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Eu não dou conta do faz-de-conta
Dizem por aí que os contos de fada prejudicaram a mentalidade das meninas, que esperam dos homens, um príncipe. Muitas, hoje já mulheres, se frustram por ver que na realidade não é bem assim o mocinho... No meu caso, deve ter sido diferente. Acho que não me encantava tanto com o príncipe, mas me fascinava com o mundo encantado em que as histórias se passavam... Se algo me frustra, é chamarem minha atenção mais pro mundo destruído que para o fantástico em que a gente vive... Sim... O mundo que a gente vive é SURREAL, e além de mostrar isso pra quem eu puder, gostaria de tornar mais visível a quem desconhece.
E, foi pensando nisso, que eu descobri que não dou conta. Como sabem, voltei a andar, e a sensação é que agora eu to retomando a trilha, mas o equipamento não está certo pra mim... Algo na bota me incomoda, uma pedra, uma meia mal calçada... Sabe quando a gente olha aquela subida quando já se esperava estar terminando a trilha? Falta fôlego, físico, disposição. Não, não era para eu já ter cansado assim, afinal - como muitos têm me dito - "você não fez nada, só descansou 5 meses!". Que seja a falta de forma, estar fora do ritmo ou a fraqueza instaurada, seja o que for: não dou conta.
E ao saber disso eu paro, sem descarregar o peso, olho pra vista sem conseguir admirá-la. Tudo me chama a parar. Será que não estamos perdendo o que importa nas frestas, nas vírgulas e nos intervalos? Eu peço desculpas, e que me chamem de fraca, mas não vale subir ao monte se o que se quer é a conquista. Cliché, mas se o que vale é mesmo o caminho, que eu me perca nos trilhos, encare a noite na floresta, mas valorize a espera do que seguir o fluxo de turistas doidos que atravessam, tiram as fotos e se apressam...
Agora, meu coração quer aquela paz do conto de fadas, de saber que tudo termina bem, que o vilão vai preso, quero a alegria, as danças, o clima, a calmaria, o céu estrelado, o cavalo alado... Em mim residem vivos: o mar, o céu e as montanhas. Eu fui lá, eu vi. O mundo encantado existe. E nele não há pressa, nem promessa... Há histórias, aventuras, e as mais belas surpresas de enredo.
Eu não dou conta de viver descrente. E sendo assim, continuo a trilha certa de que a satisfação está nos dias que já vivi e estou vivendo, não no que eu consegui ou não ser. E sendo assim, prefiro crer no sapo, do que em um humano fazendo dar tudo certo. Afinal, bem sabe ele viver bem na água e na terra. Quanto a mim, caberá mesmo aprender com o sapo a viver no mundo um mundo que para alguns é invisível.
E, foi pensando nisso, que eu descobri que não dou conta. Como sabem, voltei a andar, e a sensação é que agora eu to retomando a trilha, mas o equipamento não está certo pra mim... Algo na bota me incomoda, uma pedra, uma meia mal calçada... Sabe quando a gente olha aquela subida quando já se esperava estar terminando a trilha? Falta fôlego, físico, disposição. Não, não era para eu já ter cansado assim, afinal - como muitos têm me dito - "você não fez nada, só descansou 5 meses!". Que seja a falta de forma, estar fora do ritmo ou a fraqueza instaurada, seja o que for: não dou conta.
E ao saber disso eu paro, sem descarregar o peso, olho pra vista sem conseguir admirá-la. Tudo me chama a parar. Será que não estamos perdendo o que importa nas frestas, nas vírgulas e nos intervalos? Eu peço desculpas, e que me chamem de fraca, mas não vale subir ao monte se o que se quer é a conquista. Cliché, mas se o que vale é mesmo o caminho, que eu me perca nos trilhos, encare a noite na floresta, mas valorize a espera do que seguir o fluxo de turistas doidos que atravessam, tiram as fotos e se apressam...
Agora, meu coração quer aquela paz do conto de fadas, de saber que tudo termina bem, que o vilão vai preso, quero a alegria, as danças, o clima, a calmaria, o céu estrelado, o cavalo alado... Em mim residem vivos: o mar, o céu e as montanhas. Eu fui lá, eu vi. O mundo encantado existe. E nele não há pressa, nem promessa... Há histórias, aventuras, e as mais belas surpresas de enredo.
Eu não dou conta de viver descrente. E sendo assim, continuo a trilha certa de que a satisfação está nos dias que já vivi e estou vivendo, não no que eu consegui ou não ser. E sendo assim, prefiro crer no sapo, do que em um humano fazendo dar tudo certo. Afinal, bem sabe ele viver bem na água e na terra. Quanto a mim, caberá mesmo aprender com o sapo a viver no mundo um mundo que para alguns é invisível.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Caminhando...
O ponto de parada ficou meio parado nesses últimos tempos, confesso... Mas é que EU que comecei a me movimentar. Sabe aquele descanso em que se está extremamente cansado, após uma pesada e intensa subida, com pernas bambas e músculos antecipando as dores que vêm em seguida? É aquele momento em que você olha para trás, vê o que já caminhou e, só então, percebe o suor pelo corpo e o peso potencializado às costas. Pois é... e depois, olhamos ao que se evidencia à nossa frente: a retomada! No meu caso, foi ela que tomou minha atenção e dedicação nos últimos dois meses: reaprender a andar, dar um passo por vez, administrar mente e físico, olhar melhor o caminho...
Eu andei por muitos caminhos antes de parar aqui. Como sabem, eles fazem parte do que sou hoje e do que consigo compreender sobre minha forma de ser. Porém, pode ser que só agora, depois dessa vivência estática, que eu realmente tenha encontrado o que valha a pena se trilhar... Ao olhar meu pé - marcado, fraco e bem dolorido pela tendinite que veio pra dar aquela emoçãozinha a mais na nova etapa da minha recuperação - me recordo do que já fiz, e que bom que fiz antes do acidente acontecer! rs
Quem é besta de olhar pro pé e se achar forte? Normalmente, olhamos nossos braços, nossa inteligência, nossas habilidades, nossos feitos e nossas realizações. Pois é, eu olhava pra tudo isso. Mas hoje olho para minha cicatriz. Ali dentro tem uma placa de aço e sete pinos. E, ironicamente, isso é sinal que ele é fraco, mesmo com todo esse aço. E, às vezes eu penso que toda essa reparação não era pro meu pé apenas. Certamente, eu aguentava correr mais, carregar mais peso, me equilibrar mais, e mancar menos rs... Entretanto, não me era claro o porque eu corria tanto, ou a natureza dos pesos desnecessários que carregava, e o desequilíbrio que não se manifestava. Contraditório, mas acho que eu mancava mais.
Mas agora tô caminhando. Talvez todo esse aço pare de me incomodar um dia. Pode ser que um dia eu nem me lembre de olhar o que realmente me sustenta. E olhe pros meus braços, inteligência, habilidades, feitos e realizações. De novo. A gente se esquece fácil da coisas, não é verdade? Conto com essa possibilidade - mesmo com uma evidente cicatriz -, porque não seria a primeira vez. Porém, quando estiver lá no Caminho, do qual sou mais consciente agora, após uma longa, pesada e intensa subida, com músculos doloridos, suor escorrendo e pernas bambas, lembrarei do meu pé de aço. Não para culpá-lo, justificar o sedentarismo ou a dificuldade da caminhada, mas para parar, ganhar novo Fôlego e simplesmente descansar, pois o que carrego é leve e, hoje, a minha Força é outra - se manifesta quando sou fraca!
Pode me perguntar como eu ando. Te falarei a verdade. Estou caminhando... Ando devagar ("porque já tive pressa"- seria muito cliché falar isso né? rs... ou "eu não vim até aqui pra desistir agora"), devagar enxergo melhor o caminho. Tenho por companhia certas dores, elas me fazem lembrar que estou viva. Esse para mim é o sentido de tudo, é a Verdade, o Caminho e minha Vida a partir desse ponto de parada.
Que minha marca agora não seja minhas mancadas ou minha cicatriz, mas eu apontando essa boa, agradável e verdadeira Direção para quem encontrar na caminhada...
Eu andei por muitos caminhos antes de parar aqui. Como sabem, eles fazem parte do que sou hoje e do que consigo compreender sobre minha forma de ser. Porém, pode ser que só agora, depois dessa vivência estática, que eu realmente tenha encontrado o que valha a pena se trilhar... Ao olhar meu pé - marcado, fraco e bem dolorido pela tendinite que veio pra dar aquela emoçãozinha a mais na nova etapa da minha recuperação - me recordo do que já fiz, e que bom que fiz antes do acidente acontecer! rs
Quem é besta de olhar pro pé e se achar forte? Normalmente, olhamos nossos braços, nossa inteligência, nossas habilidades, nossos feitos e nossas realizações. Pois é, eu olhava pra tudo isso. Mas hoje olho para minha cicatriz. Ali dentro tem uma placa de aço e sete pinos. E, ironicamente, isso é sinal que ele é fraco, mesmo com todo esse aço. E, às vezes eu penso que toda essa reparação não era pro meu pé apenas. Certamente, eu aguentava correr mais, carregar mais peso, me equilibrar mais, e mancar menos rs... Entretanto, não me era claro o porque eu corria tanto, ou a natureza dos pesos desnecessários que carregava, e o desequilíbrio que não se manifestava. Contraditório, mas acho que eu mancava mais.
Mas agora tô caminhando. Talvez todo esse aço pare de me incomodar um dia. Pode ser que um dia eu nem me lembre de olhar o que realmente me sustenta. E olhe pros meus braços, inteligência, habilidades, feitos e realizações. De novo. A gente se esquece fácil da coisas, não é verdade? Conto com essa possibilidade - mesmo com uma evidente cicatriz -, porque não seria a primeira vez. Porém, quando estiver lá no Caminho, do qual sou mais consciente agora, após uma longa, pesada e intensa subida, com músculos doloridos, suor escorrendo e pernas bambas, lembrarei do meu pé de aço. Não para culpá-lo, justificar o sedentarismo ou a dificuldade da caminhada, mas para parar, ganhar novo Fôlego e simplesmente descansar, pois o que carrego é leve e, hoje, a minha Força é outra - se manifesta quando sou fraca!
Pode me perguntar como eu ando. Te falarei a verdade. Estou caminhando... Ando devagar ("porque já tive pressa"- seria muito cliché falar isso né? rs... ou "eu não vim até aqui pra desistir agora"), devagar enxergo melhor o caminho. Tenho por companhia certas dores, elas me fazem lembrar que estou viva. Esse para mim é o sentido de tudo, é a Verdade, o Caminho e minha Vida a partir desse ponto de parada.
Que minha marca agora não seja minhas mancadas ou minha cicatriz, mas eu apontando essa boa, agradável e verdadeira Direção para quem encontrar na caminhada...
segunda-feira, 30 de março de 2015
Os sábados de minha infância
Sábado é dia de acordar tarde. Hoje lembrei do que era sábado para mim antes. Era dia de ir no bosque, dia de lavar carro e quem sabe, deitar no tapete ouvindo música no som pra descansar. Essas são as memórias que eu tenho dos sábados quando eu ainda era criança. E neles, a figura do meu pai predomina.
Bom sábado e um certamente feliz dia!
Foi num sábado que eu caí e bati meus dentes de leite aos 8 anos. Foi num sábado que quebrei meu braço pela primeira vez aos 6 anos. Foi num sábado que abri minha sobrancelha em alguma manobra esquisita pra secar meu cabelo e me encontrando a testa na pia. Nesses sábados, meu pai me socorreu.
Foi num sábado que fui na feira comer pastel pela primeira vez. Foi num sábado que ganhei cortinas rosa no meu quarto, mudei a mobília de lugar e fiz qualquer arte de papel e retalhos pra dar pra família. E em todos esses momentos, meu pai estava lá.
Mas de todas essas memórias, a mais forte é a de eu no quintal, ajudando a lavar os pneus - porque meu pai, conhecendo a filha, não deixaria esfregar arranhando a lataria... Hoje sei que além de gostar de qualquer atividade que envolvesse água, eu amava a companhia do meu pai. Era nosso momento. Sinto que, de alguma maneira, foram nesses sábados que comecei a conhecê-lo. Conhecer seu jeito de falar, de fazer tudo com excelência, de fazer com todo o coração, mesmo que fosse só a tarefa de limpar uma sujeira. Nesses momentos que eu levei aquelas primeiras broncas agitadas, que eu aprendi a zoar e brincar que nem moleque, jogando água, sabão no olho... Provavelmente, foi nesse quintal que levei meus primeiros tombos e escorregadas. Mas sempre estava tudo bem. Ele estava lá.
Quantas memórias a gente só lembra quando pára... Nessa semana é provável que eu seja liberada para começar a pisar, e minha ansiedade está a mil. Talvez da mesma forma como ansiava por aqueles sábados chegarem. Esses últimos três meses foi como sentir que estava sentada, aos pés das rodas do carro, meio sem saber direito o que estava fazendo, mas com fato a fato aos poucos trazendo sentido e construindo história. O sentimento é que foi 'sábado' aqui. E meu pai estava, como sempre, ele e minha mãe estavam. Mas algo me diz que não só eles: também a felicidade repleta de um belo sábado com ótimas experiências. Um sábado do qual vou certamente sempre lembrar, o qual nunca vou querer findar.
Esse texto só seria mais legal se o aniversário do meu pai fosse sábado, mas é sexta. Porém, talvez isso seja ainda melhor: saber que há sempre mais um sábado por vir sempre me deixa feliz. Sexta, então, me parece um dia perfeito para comemorar todos os sábados que tive, e com a graça de Deus ainda desejo ter com meu pai.
Se me cabe algum desejo ainda, desejo que as minhas palavras aqui façam outros refletirem e viverem os sábados que estão simples e sutis no dia a dia: no sol que brilha, na companhia, na conversa amiga, na refeição sadia ou na recordação de alguma boa memória esquecida.
Bom sábado e um certamente feliz dia!
terça-feira, 24 de março de 2015
Das horas em que quero fugir
Quando pequena sempre vi aqueles filmes em que a criança foge de casa e vive altas aventuras. Que louco faz um filme para incentivar esse desejo nas crianças?! A verdade é que tinha essa vontade, sem mesmo ter o motivo. Até mesmo quando tudo está bem, fugir se faz tão atrativo. Afinal sempre há mais para ver e coisas por se descobrir. Quem não quer se surpreender?
Às vezes eu quero fugir. E essa sensação não me parece ser peculiarmente só minha. Estou errada? Desde meus primeiros anos de adolescência, a vontade de abstrair se fez cada vez mais tentadora e com várias justificativas. Teve vezes em que a impossibilidade de concretizar este desejo me fez bem artística e criativa, e muitos novos mundos surgiram na minha imaginação quando o abismo se tornou minha incrível habilidade de sobrevoar. Mas e quando a gente tem às mãos a escolha de literalmente fugir? Acredito que essa opção sempre existe, é uma escolha que podemos fazer até mesmo parados.
Por alguns anos me distanciei de tudo e todos que não me agradava - vivia o sonho. A solitude não me incomodava contanto que me encontrasse apenas com meus próprios desafios e problemas. Tão egoísta que sou, você deve estar pensando... Pois sou. Não nego e também não me orgulho ou sinto-me em paz me enxergando assim. Mas tem sido interessante entender, talvez mais claramente, que a minha indiferença não importa nem depende de a fuga poder acontecer concretamente ou não.
Sabe o que é, eu me canso das pessoas, me canso de seus constantes problemas pelas mesmas coisas - que eu considero picuinhas -, me canso de conversar (acredite ou não) sempre que não for do meu interesse o assunto... Quando me vejo em uma discussão tola, quero fugir. Quando a situação não me agrada e o tempo parece cochichar "desperdício, desperdício", quero fugir. Quando aos meus olhos não recebo a beleza que acho que mereço, quero fugir. Quando não ouço o som ou o tom que me agrada, quero fugir. Quando não me recebem como eu queria, quero fugir. Quando não me amam o suficiente, quando não notam que sou diferente, quando me julgam sem me conhecer, quando me mal compreendem...
Mas estando aqui parada, de alguma maneira foram poucas as vezes em que quis fugir. É engraçado, agora, perceber, que toda vez que quero fugir estou pensando em minhas expectativas, como uma bela e formosa rainha que merece ter tudo de melhor do mundo. A melhor roupa, a melhor companhia, a melhor dança, o melhor banquete, os mais belos momentos e consolos. Ter de me calar quando queria falar umas poucas e boas, ter de me portar quando queria falar mais alto, ter de ouvir, quando queria interromper. Sou extremamente tendenciosa a ser meu próprio Sol. Pois bem, aprendi e preciso diariamente reaprender que ao invés de fugir, mais vale ficar em um ponto parada - sem precisar se forçar ou ser forçada - para me enxergar melhor e ser desafiada a ser melhor em amar outros como eu amo a mim mesma.
Se quando criança só me faltava motivos para fugir, devia ver na simplicidade do que se tem e do que se é, satisfação. Acumulo, agora, em minha extraviada e fugitiva forma de ser, mil justificativas para querer ficar. E talvez as primeiras razões sejam crescer, amadurecer e aprender a verdadeiramente amar. Se é para o bem de outros e felicidade geral de encontrar propósito em existir nesse mundo, digam a todos que fico. (óia eu me fazendo de príncipe agora... calma, um dia eu aprendo).
Às vezes eu quero fugir. E essa sensação não me parece ser peculiarmente só minha. Estou errada? Desde meus primeiros anos de adolescência, a vontade de abstrair se fez cada vez mais tentadora e com várias justificativas. Teve vezes em que a impossibilidade de concretizar este desejo me fez bem artística e criativa, e muitos novos mundos surgiram na minha imaginação quando o abismo se tornou minha incrível habilidade de sobrevoar. Mas e quando a gente tem às mãos a escolha de literalmente fugir? Acredito que essa opção sempre existe, é uma escolha que podemos fazer até mesmo parados.
Por alguns anos me distanciei de tudo e todos que não me agradava - vivia o sonho. A solitude não me incomodava contanto que me encontrasse apenas com meus próprios desafios e problemas. Tão egoísta que sou, você deve estar pensando... Pois sou. Não nego e também não me orgulho ou sinto-me em paz me enxergando assim. Mas tem sido interessante entender, talvez mais claramente, que a minha indiferença não importa nem depende de a fuga poder acontecer concretamente ou não.
Sabe o que é, eu me canso das pessoas, me canso de seus constantes problemas pelas mesmas coisas - que eu considero picuinhas -, me canso de conversar (acredite ou não) sempre que não for do meu interesse o assunto... Quando me vejo em uma discussão tola, quero fugir. Quando a situação não me agrada e o tempo parece cochichar "desperdício, desperdício", quero fugir. Quando aos meus olhos não recebo a beleza que acho que mereço, quero fugir. Quando não ouço o som ou o tom que me agrada, quero fugir. Quando não me recebem como eu queria, quero fugir. Quando não me amam o suficiente, quando não notam que sou diferente, quando me julgam sem me conhecer, quando me mal compreendem...
Mas estando aqui parada, de alguma maneira foram poucas as vezes em que quis fugir. É engraçado, agora, perceber, que toda vez que quero fugir estou pensando em minhas expectativas, como uma bela e formosa rainha que merece ter tudo de melhor do mundo. A melhor roupa, a melhor companhia, a melhor dança, o melhor banquete, os mais belos momentos e consolos. Ter de me calar quando queria falar umas poucas e boas, ter de me portar quando queria falar mais alto, ter de ouvir, quando queria interromper. Sou extremamente tendenciosa a ser meu próprio Sol. Pois bem, aprendi e preciso diariamente reaprender que ao invés de fugir, mais vale ficar em um ponto parada - sem precisar se forçar ou ser forçada - para me enxergar melhor e ser desafiada a ser melhor em amar outros como eu amo a mim mesma.
Se quando criança só me faltava motivos para fugir, devia ver na simplicidade do que se tem e do que se é, satisfação. Acumulo, agora, em minha extraviada e fugitiva forma de ser, mil justificativas para querer ficar. E talvez as primeiras razões sejam crescer, amadurecer e aprender a verdadeiramente amar. Se é para o bem de outros e felicidade geral de encontrar propósito em existir nesse mundo, digam a todos que fico. (óia eu me fazendo de príncipe agora... calma, um dia eu aprendo).
quarta-feira, 11 de março de 2015
Naufrágio
Já vi e ouvi a analogia de nós, seres humanos, sermos barcos, navios ou, que seja, veleiros a navegar pela vida... Mas, pela primeira vez, hoje tive a incerteza de ser bom criar tantas analogias para nos caracterizar. Afinal, todos nós mudamos, não é verdade?! Haja analogias para nos simbolizar durante toda uma vida! Talvez, nossa única certeza é que deveria ser analogada e que, na história do barquinho, seria a de que todos nós um dia vamos naufragar.
Alguns impetuosos barquinhos, novos, afundam antes da hora, por terem coragem demais, e experiência de menos. Outros navios, cargueiros, levando em si tanto conhecimento, viajam toda uma vida, sem uma vida ao mar achar. Ainda, alguns pequenos veleiros, vivem à mercê das ondas, das correntes e dos fortes ventos, usando de suas melhores habilidades para se manterem no rumo. E às vezes, aquela boa e velha canoa é o melhor abrigo no meio do mar. Nem motor, nem vela - apenas remar... Mas, mais uma vez, e me perdi no natural enfoque que damos ao barco. Então, retomo: a única certeza para todos nós é o naufrágio.
Daí surgem as teorias, "o mundo é quadrado", e dar-se-á em um abismo; ou "o mundo é redondo", mas o que acontece depois que você comprovar? O mar e os oceanos sempre encantaram os povos de todas as épocas. Histórias, odes, lendas e aventuras. Homens exploradores, glória, avanço, competição, superação. O mar e seus mistérios... Sua imensidão abriga histórias infinitas. Suas ondas encobrem um mundo divino e indescritível.
O que realmente sabemos sobre a nossa rota? Sobre o que sob os nossos pés está? Assim como a inconsistência do estado físico da água marinha é nosso caminho. Talvez não nos importa tanto que teoria sobre o mar além adotar, mas estar atento a onde e quando aportar, hora certa e lugar. Parar de reparar em adereços do barco e cuidar de reparos verdadeiramente necessários e internos para ir ao destino que nos espera. E o que sabemos sobre esse destino? Você acha que me refiro a um porto? De maneira alguma, nosso destino é o fundo do mar.
Quanto a isso marinheiros, capitães, homens fortes e corajosos estremessem... Temos medo da nossa maior certeza. Esse dia virá. E nos resta entender que "só sei que nada sei". Mas me parece que grande maioria já está a naufragar, perdidos em meio ao mar, sem querer confessar, se localizar olhando para o céu, pras estrelas, pro horizonte... Preocupados apenas com suas próprias velas, mastros, com chegar ao porto que como donos e entendedores dos 7 marés escolheram, sem compreender que para tudo há seu tempo, propósito e lugar, perdem a oportunidade de se entregar ao verdadeiro destino, entender que todo barco é, na verdade, passageiro. E poder, assim, parar de olhar pra dentro e somente pro barquinho, parar de afundar precocemente, redirecionar os olhos, admirar, aproveitar o pôr do Sol, a beira-mar, as mais belas criaturas, a maresia, a doce água doce da chuva...
Quando atracamos, assim como eu aqui, neste porto de parada, podemos ter mais clareza dessa efemeridade. Meu barco encalhou, fui a um lugar raso ou pelo menos, raso demais para mim. Mas esse tempo neste ponto parada, pude rever minha rota, aprender a respeitar o mar, ver outros barcos passando e cada dia é um novo aprendizado. Minha aventura não terminou, ainda que já tenha muitas histórias, estou tendo tempo de reconhecer onde vale a pena navegar, reparar as falhas na embarcação e me situar melhor no oceano. Na hora certa, a maré sobe.
É bom estar sensível aos astros, às ondas, às correntes... Passar por tempestades pode sim nos fazer fortes, mas não nos ajuda necessariamente a ancorar em paz. Essa só se tem quando se pesca no que eu mergulhei: a beleza que me espera quando afundar e aprofundar... Fico só a imaginar, o dia em que eu naufragar. Vão comigo minhas histórias, não hão de outro tesouro em mim achar. Hoje escutei a seguinte frase: "Neste mundo de naufrágios há esperança na incerteza.". Quem entende que não se tem controle da nau, descansa e se liberta. Meu naufrágio há de ser simples. E não iniciei ele ainda, porque escolhi remar para as surpresas que todo dia me esperam em alto-mar.
Vai, repara-te. O naufrágio na hora certa vai chegar. Agora, olha para o incerto mar sem medo de navegar. Há liberdade no incontrolável. Há beleza no imprevisível.
Alguns impetuosos barquinhos, novos, afundam antes da hora, por terem coragem demais, e experiência de menos. Outros navios, cargueiros, levando em si tanto conhecimento, viajam toda uma vida, sem uma vida ao mar achar. Ainda, alguns pequenos veleiros, vivem à mercê das ondas, das correntes e dos fortes ventos, usando de suas melhores habilidades para se manterem no rumo. E às vezes, aquela boa e velha canoa é o melhor abrigo no meio do mar. Nem motor, nem vela - apenas remar... Mas, mais uma vez, e me perdi no natural enfoque que damos ao barco. Então, retomo: a única certeza para todos nós é o naufrágio.
Daí surgem as teorias, "o mundo é quadrado", e dar-se-á em um abismo; ou "o mundo é redondo", mas o que acontece depois que você comprovar? O mar e os oceanos sempre encantaram os povos de todas as épocas. Histórias, odes, lendas e aventuras. Homens exploradores, glória, avanço, competição, superação. O mar e seus mistérios... Sua imensidão abriga histórias infinitas. Suas ondas encobrem um mundo divino e indescritível.
O que realmente sabemos sobre a nossa rota? Sobre o que sob os nossos pés está? Assim como a inconsistência do estado físico da água marinha é nosso caminho. Talvez não nos importa tanto que teoria sobre o mar além adotar, mas estar atento a onde e quando aportar, hora certa e lugar. Parar de reparar em adereços do barco e cuidar de reparos verdadeiramente necessários e internos para ir ao destino que nos espera. E o que sabemos sobre esse destino? Você acha que me refiro a um porto? De maneira alguma, nosso destino é o fundo do mar.
Quanto a isso marinheiros, capitães, homens fortes e corajosos estremessem... Temos medo da nossa maior certeza. Esse dia virá. E nos resta entender que "só sei que nada sei". Mas me parece que grande maioria já está a naufragar, perdidos em meio ao mar, sem querer confessar, se localizar olhando para o céu, pras estrelas, pro horizonte... Preocupados apenas com suas próprias velas, mastros, com chegar ao porto que como donos e entendedores dos 7 marés escolheram, sem compreender que para tudo há seu tempo, propósito e lugar, perdem a oportunidade de se entregar ao verdadeiro destino, entender que todo barco é, na verdade, passageiro. E poder, assim, parar de olhar pra dentro e somente pro barquinho, parar de afundar precocemente, redirecionar os olhos, admirar, aproveitar o pôr do Sol, a beira-mar, as mais belas criaturas, a maresia, a doce água doce da chuva...
Quando atracamos, assim como eu aqui, neste porto de parada, podemos ter mais clareza dessa efemeridade. Meu barco encalhou, fui a um lugar raso ou pelo menos, raso demais para mim. Mas esse tempo neste ponto parada, pude rever minha rota, aprender a respeitar o mar, ver outros barcos passando e cada dia é um novo aprendizado. Minha aventura não terminou, ainda que já tenha muitas histórias, estou tendo tempo de reconhecer onde vale a pena navegar, reparar as falhas na embarcação e me situar melhor no oceano. Na hora certa, a maré sobe.
É bom estar sensível aos astros, às ondas, às correntes... Passar por tempestades pode sim nos fazer fortes, mas não nos ajuda necessariamente a ancorar em paz. Essa só se tem quando se pesca no que eu mergulhei: a beleza que me espera quando afundar e aprofundar... Fico só a imaginar, o dia em que eu naufragar. Vão comigo minhas histórias, não hão de outro tesouro em mim achar. Hoje escutei a seguinte frase: "Neste mundo de naufrágios há esperança na incerteza.". Quem entende que não se tem controle da nau, descansa e se liberta. Meu naufrágio há de ser simples. E não iniciei ele ainda, porque escolhi remar para as surpresas que todo dia me esperam em alto-mar.
Vai, repara-te. O naufrágio na hora certa vai chegar. Agora, olha para o incerto mar sem medo de navegar. Há liberdade no incontrolável. Há beleza no imprevisível.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Dentre todas as possibilidades
No mergulho, nunca sabemos o que vamos encontrar. Eu, particularmente, não crio expectativas, sei que sempre algo vem e, dentro de várias possibilidades, marca cada descida ao profundo mar - nunca é a mesma história. Certa vez, nadei lado a lado com uma tartaruguinha. Ela surgiu, em toda imensidão que podia estar, em meu percurso. E a surpresa: ela não se afastou, ficou por um ou dois minutos bem pertinho de mim.
Dentre todas as possibilidades, apenas uma acontece. Eu, desde pequena, sempre tive uma mente bem divagadora, cheia de devaneios e imaginação. De alguma forma, eu sempre penso que a realidade pode ficar bem mais interessante com uma pequena colaboração minha. Se eu conseguir trazer ao mundo real minhas ideias mirabolantes, por vezes, verei nos semblantes dos outros a surpresa do encontro deles com meus pensamentos; entretanto, se eu não conseguir trazer ao mundo real, ainda sorrio sozinha imaginando algo surreal acontecendo enquanto alguma situação se desenrola. É nessa segunda opção que eu me transporto para fora da realidade na qual todos vivem e viajo.
Talvez, quando em alguma idade incerta eu entendi que super-poderes não existiam, acabei me apegando a tornar realidade algumas ideias surpreendentes e extraordinárias. Ver as pessoas sempre desesperançosas enquanto eu enxergava as infinitas possibilidades sempre me inspirou a fazer algo por elas, fosse um abajur de bugigangas, um porta retrato de recicláveis ou um simples carta em códigos, cores e desenhos 3D nada comuns. Uma festa surpresa, um jantar temático, um poema lúdico ou uma foto que comprovasse a existência de lindas e possíveis situações que entre a infância e a juventude a gente perde pelo caminho de 'amadurecer' nesse mundo entediante e chato, psicologicamente embutido às nossas mentes.
Mas, então, agora, parada, me encontro quase que vidrada pelo mundo real. Ao invés das possibilidades que ficam na imaginação, me prende a atenção aquela que se torna realidade. Dentre as mil possibilidades do que eu poderia ter feito, lugares que podia ter visitado, pessoas que teria conhecido, eu estou aqui: em casa, Campinas-SP (como tenho escrito diariamente). Dois meses em um mesmo lugar... Essa possibilidade eu não havia previsto, sequer imaginado. Talvez em todos esses anos eu não considerei que a constância e o comum podiam ainda assim serem tão incríveis ou que com pessoas que há tanto tempo conheço ainda assim poderia experimentar conversas e momentos tão espetaculares!
A verdade é que de tão longe que a minha imaginação sempre foi, para mais longe ainda a impossibilidade de andar me levou. E eu estou apaixonada. Sem mil devaneios - apenas uns 200 rs... - olho as coisas e as coisas me olham, vejo-as meio como Alberto Caeiro, sendo belas sem assim dizê-las. Penso, assim, que talvez, de todas coisas incríveis que consigo imaginar e lugares sensacionais pelos quais andei e ainda posso conhecer, algo Inimaginável esteja por trás. Talvez faça mais sentido eu poder trazer um pouco disso para a vida de outros estando num mesmo lugar,constante, e também me permitir que outros me surpreendam por suas imagináveis possibilidades.
Por fim, não nego que não penso mais nas mil possibilidades que virão. E quando eu voltar a andar? O que eu realmente estou aprendendo? Que possibilidades meus pés, então, retornando ao status de equipe, tornarão a caminhar? Sinceramente, eu não sei, só posso imaginar. E sinto que essa é a melhor resposta que eu possa dar. Agora, eu não quero mais escrever, tem uma chuva fina e constante, de brisa leve e gelada, igual a que eu sempre gosto de imaginar, realmente acontecendo em minha janela. Eu preciso parar e admirar. É possível que ela pare, bem como continue. De um jeito ou outro, me surpreenderá.
Ando com saudade de mergulhar, saudade da água do mar. Porém confesso que havia me esquecido o quanto amava chuva, seu barulho e sua textura. De todo jeito, dentro das mil possibilidades de ser quem sou, eu bem sei que posso e estou a mergulhar.
Dentre todas as possibilidades, apenas uma acontece. Eu, desde pequena, sempre tive uma mente bem divagadora, cheia de devaneios e imaginação. De alguma forma, eu sempre penso que a realidade pode ficar bem mais interessante com uma pequena colaboração minha. Se eu conseguir trazer ao mundo real minhas ideias mirabolantes, por vezes, verei nos semblantes dos outros a surpresa do encontro deles com meus pensamentos; entretanto, se eu não conseguir trazer ao mundo real, ainda sorrio sozinha imaginando algo surreal acontecendo enquanto alguma situação se desenrola. É nessa segunda opção que eu me transporto para fora da realidade na qual todos vivem e viajo.
Talvez, quando em alguma idade incerta eu entendi que super-poderes não existiam, acabei me apegando a tornar realidade algumas ideias surpreendentes e extraordinárias. Ver as pessoas sempre desesperançosas enquanto eu enxergava as infinitas possibilidades sempre me inspirou a fazer algo por elas, fosse um abajur de bugigangas, um porta retrato de recicláveis ou um simples carta em códigos, cores e desenhos 3D nada comuns. Uma festa surpresa, um jantar temático, um poema lúdico ou uma foto que comprovasse a existência de lindas e possíveis situações que entre a infância e a juventude a gente perde pelo caminho de 'amadurecer' nesse mundo entediante e chato, psicologicamente embutido às nossas mentes.
Mas, então, agora, parada, me encontro quase que vidrada pelo mundo real. Ao invés das possibilidades que ficam na imaginação, me prende a atenção aquela que se torna realidade. Dentre as mil possibilidades do que eu poderia ter feito, lugares que podia ter visitado, pessoas que teria conhecido, eu estou aqui: em casa, Campinas-SP (como tenho escrito diariamente). Dois meses em um mesmo lugar... Essa possibilidade eu não havia previsto, sequer imaginado. Talvez em todos esses anos eu não considerei que a constância e o comum podiam ainda assim serem tão incríveis ou que com pessoas que há tanto tempo conheço ainda assim poderia experimentar conversas e momentos tão espetaculares!
A verdade é que de tão longe que a minha imaginação sempre foi, para mais longe ainda a impossibilidade de andar me levou. E eu estou apaixonada. Sem mil devaneios - apenas uns 200 rs... - olho as coisas e as coisas me olham, vejo-as meio como Alberto Caeiro, sendo belas sem assim dizê-las. Penso, assim, que talvez, de todas coisas incríveis que consigo imaginar e lugares sensacionais pelos quais andei e ainda posso conhecer, algo Inimaginável esteja por trás. Talvez faça mais sentido eu poder trazer um pouco disso para a vida de outros estando num mesmo lugar,constante, e também me permitir que outros me surpreendam por suas imagináveis possibilidades.
Por fim, não nego que não penso mais nas mil possibilidades que virão. E quando eu voltar a andar? O que eu realmente estou aprendendo? Que possibilidades meus pés, então, retornando ao status de equipe, tornarão a caminhar? Sinceramente, eu não sei, só posso imaginar. E sinto que essa é a melhor resposta que eu possa dar. Agora, eu não quero mais escrever, tem uma chuva fina e constante, de brisa leve e gelada, igual a que eu sempre gosto de imaginar, realmente acontecendo em minha janela. Eu preciso parar e admirar. É possível que ela pare, bem como continue. De um jeito ou outro, me surpreenderá.
Ando com saudade de mergulhar, saudade da água do mar. Porém confesso que havia me esquecido o quanto amava chuva, seu barulho e sua textura. De todo jeito, dentro das mil possibilidades de ser quem sou, eu bem sei que posso e estou a mergulhar.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
O menino do trem
Estar aqui parada tem sido uma experiência e tanto, como todos já sabem. A princípio, o que eu mesma acreditava ser um grande desafio para a menina que está sempre em movimento se revelou apenas mais um episódio da vida - nem maior nem menor que outros. Talvez por envolver dor, acreditamos ser 'tragédia' e desafiador, mas parando pra pensar, observei que diariamente - correndo ou não - todos nós compartilhamos do real desafio dessa vida: pessoas.
Na última lua cheia, eu tinha planejado olhar o céu. Estender minha espreguiçadeira no quintal, talvez ficar lá, coberta por uma colcha delícia, como nesses filmes de drama ou romance. Na minha cabeça já estava tudo planejado, tipo filme americano... Exceto que eu estaria sem o galã, que provavelmente fez um filme de vampiro ou super-herói, ou trama barata de livro transformado em romance ou ainda um daqueles famosos de comédias amorosas água com açúcar, porém estaria muito bem acompanhada pelo meu par de muletas. Acredite ou não, já sorri mais vezes por causa delas do que com outras possíveis companhias...
E só porque eu queria ver o céu... choveu! Óbvio! (me imagine fazendo joinha neste momento com sorriso de quando a tia fala "Nossa, como você cresceu"). Então, coube a mim e a meu querido pé aproveitar o barulhinho da chuva, a brisa que invadia meu quarto e um bom filme. Afinal, não é porque não pude viver a cena de filme que queria que não poderia assistir a um! Então, depois, prestes a pegar no sono, ainda um pouco inconformada com o céu nublado que impossibilitara meu encontro com a lua cheia, relembrei, como recorrentemente tenho feito, da Noruega, daquele céu distante e me surgiu uma 'nova-velha' lembrança, algo que eu havia completamente esquecido que ocorrera e que provavelmente estava descartada na lixeira da minha memória: o menino do trem.
Por um tempo razoável, vivi longe de tudo e todos, e ao contrário do que alguns supõem, foi um tempo incrível. Relativamente fácil, mas isso não era óbvio para mim nem para outros que me enxergavam como um tipo de guerreira. Não ter que lidar com outros temperamentos, gostos, picuinhas, coisas que não me importam, devido a minha mínima convivência com seres humanos, me fez aprender muito e o quão valioso é ter tempo de solitude. Mas quando olho para os momentos verdadeiramente grandes da minha vida, de alguma maneira, eu não estava só.
Nem sempre foram pessoas que eu conhecia ou que me conheciam, mas foram experiências compartilhadas. A própria ida a Noruega foi repleta da presença de pessoas que eu nunca mais vi, mas que estão comigo ainda, inesquecíveis... E quase todas surgiram de maneira improvável. Pessoas com quem conversei por horas debaixo de um céu estrelado, compartilhei a vista das luzes verdes e um frio literalmente congelante, refeições típicas, assentos lado a lado em estádios de algum esporte inusitado, aventuras cuja ignorância não me permitiu ver nenhum risco, lições e encontros em museus de arte inspiradores, e pessoas com quem ainda troco mensagens e emails verdadeiramente profundos e significativos...
Nesses quase dois meses de parada, pensei muito em pessoas. E sempre atrelados a esse pensamento me vêm histórias e episódios. Algumas pessoas que sempre aparecem quando mais preciso, algumas que mesmo impedidas de vir me ver sei que me querem bem. Algumas que nunca aparecem, mas tudo bem. Outras que recentemente pude conhecer mais e se aproximaram, ou que sempre conheci, mas até então não éramos próximas. Bem como pessoas que sumiram, que nunca mais vi. A verdade é que aquelas com quem compartilhamos olhar sincero e coração abertos verdadeiramente e destemidamente, seja apenas uma vez ou uma vida toda, essas são sempre relembradas nessas histórias e episódios destes momentos de conexão real. E o que descobri, agora, é que algumas dessas boas histórias, nosso cérebro arquiva e, até mesmo, nos esquecemos... Como o menino do trem. Pois bem, a curiosidade já deve estar grande, então vamos lá:
Era uma vez, num reino verdadeiramente encantado, mas também verdadeiramente real e existente e, portanto, não mágico, um menino que encontrei num trem. E, infelizmente, essa vez foi realmente apenas uma vez, e esse menino apenas um menino. O passeio mais lindo de trem que existe, tanto por relatos de experts quanto aos meus olhos de leiga e passageira de primeira viagem em ferrovia, cortava o país de gelo, da capital ao litoral e transcorria milhas de paisagens incríveis! Nisso sim, havia "mágica". Desde o início da partida compartilhava o assento ao lado do meu banco com um menino, aparentemente da minha idade, com os traços hereditários de uma família nórdica. Simpático, maduro, mas tão receoso quanto eu para se abrir e puxar assunto com alguém desconhecido. Começamos a contar quem éramos, e por termos histórias e realidades tão distantes, íamos nos surpreendendo, entretidos e, de vez em quando, nos interrompíamos para apontar vistas merecedoras de apreciação silenciosa e devota.
Ele morava em alguma cidade asiática importante, se não me engano Cingapura, e estava voltando para visitar os pais na Noruega. Estudou muitos anos fora do país, ensino médio e algum curso de humanas na faculdade, acho que Direito ou Relações Públicas, mas poderia ser Medicina - é que, sinceramente, desde quando o que a pessoa faz importa quando estamos conhecendo quem ela verdadeiramente é? Compartilhamos um dia único, de conversas interessantes, em palavras e por olhos também. E aos bestas de plantão pensando "own.....", não imaginem a cena como qualquer coisa romântica, por favor. Aliás, devíamos parar de colocar nossa carência nessa necessidade constante de transformar tudo em romance ou sensual. Tendo feito essa ressalva sobre a minha experiência, prossigo: foi um daqueles momentos em que o tempo fica mais infinito e nos sentimos mais humanos. Você já sentiu isso? Eu chamo de 'momentos de eternidade', e vira-e-mexe, me lembro de um desses, e sorrio sozinha...!
Foi o que aconteceu, sem lua cheia a vista, ganhei algo bem melhor, como quem encontra algo que procurava há muito tempo. São presentes de graça, que dinheiro não compra nem paga. É algo que nos torna mais vivos! Todo mundo devia poder provar disso um dia pelo menos na vida, mas sei que a realidade é outra...
Como eu por tanto tempo havia me esquecido desse trajeto de trem, desse momento, desse menino? Essa história, entre outras histórias, é digna de ser contada em uma lareira com meus filhos, minha família... (mais uma vez: nada romântico - a não ser que saiba o que realmente significa romance). São desses momentos que preciso me lembrar quando situações chatas acontecem... São como um sino que, ao soar, me relembra o que realmente importa, colocando tudo em seu real valor e essência. Lembrar que com a mesma pessoa a quem eu posso dizer coisas más - seja a quem for -, eu posso também compartilhar momentos transformadores, naturais e verdadeiros e que preciso, portanto, propiciar essas chances aproveitando as oportunidades para experimentar isso!
Meu desejo é não esquecer, e buscar esse tipo de recordação, ao invés de problemas desnecessários, superficiais e passageiros. E se eu acumular muitas dessas boas lembranças, que bom! Certamente uma excelente maneira de ocupar meu baú de memórias! Bom mesmo é o que é eterno assim. E mais: muito bem compartilhado e em boa companhia. Porque é assim quando acontece.
Infelizmente, eu desci em uma parada diferente da dele. E não trocamos contato. Mas talvez dividimos uma experiência tão boa quanto longas e fiéis amizades. Desejo isso a todos, que pelo menos uma vez, também se encontrem com um menino no trem. O reino encantado é essa nossa vida, real, diária, cotidiana... Não há nada de mágico ou surreal. Talvez só seja preciso acreditar nas pessoas um pouco mais, olhar para os outros como crianças, sempre dispostas a se surpreenderem. Melhor que ver a lua cheia ou qualquer coisa que eu persigo, é estar aberta à beleza natural dos encontros. Reais encontros. (com ou sem romance... rs)
Legenda: Esse era o trem, assim que eu desci e ele seguiu.
Na última lua cheia, eu tinha planejado olhar o céu. Estender minha espreguiçadeira no quintal, talvez ficar lá, coberta por uma colcha delícia, como nesses filmes de drama ou romance. Na minha cabeça já estava tudo planejado, tipo filme americano... Exceto que eu estaria sem o galã, que provavelmente fez um filme de vampiro ou super-herói, ou trama barata de livro transformado em romance ou ainda um daqueles famosos de comédias amorosas água com açúcar, porém estaria muito bem acompanhada pelo meu par de muletas. Acredite ou não, já sorri mais vezes por causa delas do que com outras possíveis companhias...
E só porque eu queria ver o céu... choveu! Óbvio! (me imagine fazendo joinha neste momento com sorriso de quando a tia fala "Nossa, como você cresceu"). Então, coube a mim e a meu querido pé aproveitar o barulhinho da chuva, a brisa que invadia meu quarto e um bom filme. Afinal, não é porque não pude viver a cena de filme que queria que não poderia assistir a um! Então, depois, prestes a pegar no sono, ainda um pouco inconformada com o céu nublado que impossibilitara meu encontro com a lua cheia, relembrei, como recorrentemente tenho feito, da Noruega, daquele céu distante e me surgiu uma 'nova-velha' lembrança, algo que eu havia completamente esquecido que ocorrera e que provavelmente estava descartada na lixeira da minha memória: o menino do trem.
Por um tempo razoável, vivi longe de tudo e todos, e ao contrário do que alguns supõem, foi um tempo incrível. Relativamente fácil, mas isso não era óbvio para mim nem para outros que me enxergavam como um tipo de guerreira. Não ter que lidar com outros temperamentos, gostos, picuinhas, coisas que não me importam, devido a minha mínima convivência com seres humanos, me fez aprender muito e o quão valioso é ter tempo de solitude. Mas quando olho para os momentos verdadeiramente grandes da minha vida, de alguma maneira, eu não estava só.
Nem sempre foram pessoas que eu conhecia ou que me conheciam, mas foram experiências compartilhadas. A própria ida a Noruega foi repleta da presença de pessoas que eu nunca mais vi, mas que estão comigo ainda, inesquecíveis... E quase todas surgiram de maneira improvável. Pessoas com quem conversei por horas debaixo de um céu estrelado, compartilhei a vista das luzes verdes e um frio literalmente congelante, refeições típicas, assentos lado a lado em estádios de algum esporte inusitado, aventuras cuja ignorância não me permitiu ver nenhum risco, lições e encontros em museus de arte inspiradores, e pessoas com quem ainda troco mensagens e emails verdadeiramente profundos e significativos...
Nesses quase dois meses de parada, pensei muito em pessoas. E sempre atrelados a esse pensamento me vêm histórias e episódios. Algumas pessoas que sempre aparecem quando mais preciso, algumas que mesmo impedidas de vir me ver sei que me querem bem. Algumas que nunca aparecem, mas tudo bem. Outras que recentemente pude conhecer mais e se aproximaram, ou que sempre conheci, mas até então não éramos próximas. Bem como pessoas que sumiram, que nunca mais vi. A verdade é que aquelas com quem compartilhamos olhar sincero e coração abertos verdadeiramente e destemidamente, seja apenas uma vez ou uma vida toda, essas são sempre relembradas nessas histórias e episódios destes momentos de conexão real. E o que descobri, agora, é que algumas dessas boas histórias, nosso cérebro arquiva e, até mesmo, nos esquecemos... Como o menino do trem. Pois bem, a curiosidade já deve estar grande, então vamos lá:
Era uma vez, num reino verdadeiramente encantado, mas também verdadeiramente real e existente e, portanto, não mágico, um menino que encontrei num trem. E, infelizmente, essa vez foi realmente apenas uma vez, e esse menino apenas um menino. O passeio mais lindo de trem que existe, tanto por relatos de experts quanto aos meus olhos de leiga e passageira de primeira viagem em ferrovia, cortava o país de gelo, da capital ao litoral e transcorria milhas de paisagens incríveis! Nisso sim, havia "mágica". Desde o início da partida compartilhava o assento ao lado do meu banco com um menino, aparentemente da minha idade, com os traços hereditários de uma família nórdica. Simpático, maduro, mas tão receoso quanto eu para se abrir e puxar assunto com alguém desconhecido. Começamos a contar quem éramos, e por termos histórias e realidades tão distantes, íamos nos surpreendendo, entretidos e, de vez em quando, nos interrompíamos para apontar vistas merecedoras de apreciação silenciosa e devota.
Ele morava em alguma cidade asiática importante, se não me engano Cingapura, e estava voltando para visitar os pais na Noruega. Estudou muitos anos fora do país, ensino médio e algum curso de humanas na faculdade, acho que Direito ou Relações Públicas, mas poderia ser Medicina - é que, sinceramente, desde quando o que a pessoa faz importa quando estamos conhecendo quem ela verdadeiramente é? Compartilhamos um dia único, de conversas interessantes, em palavras e por olhos também. E aos bestas de plantão pensando "own.....", não imaginem a cena como qualquer coisa romântica, por favor. Aliás, devíamos parar de colocar nossa carência nessa necessidade constante de transformar tudo em romance ou sensual. Tendo feito essa ressalva sobre a minha experiência, prossigo: foi um daqueles momentos em que o tempo fica mais infinito e nos sentimos mais humanos. Você já sentiu isso? Eu chamo de 'momentos de eternidade', e vira-e-mexe, me lembro de um desses, e sorrio sozinha...!
Foi o que aconteceu, sem lua cheia a vista, ganhei algo bem melhor, como quem encontra algo que procurava há muito tempo. São presentes de graça, que dinheiro não compra nem paga. É algo que nos torna mais vivos! Todo mundo devia poder provar disso um dia pelo menos na vida, mas sei que a realidade é outra...
Como eu por tanto tempo havia me esquecido desse trajeto de trem, desse momento, desse menino? Essa história, entre outras histórias, é digna de ser contada em uma lareira com meus filhos, minha família... (mais uma vez: nada romântico - a não ser que saiba o que realmente significa romance). São desses momentos que preciso me lembrar quando situações chatas acontecem... São como um sino que, ao soar, me relembra o que realmente importa, colocando tudo em seu real valor e essência. Lembrar que com a mesma pessoa a quem eu posso dizer coisas más - seja a quem for -, eu posso também compartilhar momentos transformadores, naturais e verdadeiros e que preciso, portanto, propiciar essas chances aproveitando as oportunidades para experimentar isso!
Meu desejo é não esquecer, e buscar esse tipo de recordação, ao invés de problemas desnecessários, superficiais e passageiros. E se eu acumular muitas dessas boas lembranças, que bom! Certamente uma excelente maneira de ocupar meu baú de memórias! Bom mesmo é o que é eterno assim. E mais: muito bem compartilhado e em boa companhia. Porque é assim quando acontece.
Infelizmente, eu desci em uma parada diferente da dele. E não trocamos contato. Mas talvez dividimos uma experiência tão boa quanto longas e fiéis amizades. Desejo isso a todos, que pelo menos uma vez, também se encontrem com um menino no trem. O reino encantado é essa nossa vida, real, diária, cotidiana... Não há nada de mágico ou surreal. Talvez só seja preciso acreditar nas pessoas um pouco mais, olhar para os outros como crianças, sempre dispostas a se surpreenderem. Melhor que ver a lua cheia ou qualquer coisa que eu persigo, é estar aberta à beleza natural dos encontros. Reais encontros. (com ou sem romance... rs)
Legenda: Esse era o trem, assim que eu desci e ele seguiu.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Rasura
Nos ensinaram que rasurar é feio. Mas talvez seja a mais bela coragem de corrigir um erro, sem medo de reparar o que é preciso dar um jeito. Talvez se esses riscos fossem traçados mais frequentemente não tinha como tanto erro ficar escrito assim permanentemente... Falo tudo isso, porque sabe quando muda o ano, e vamos escrever a data em um caderno ou cabeçalho e colocamos o ano anterior? Pois é, cometi essa falta recentemente. Esse tipo de erro, ao mesmo tempo em que é gritante - quem esquece do ano em que está?! -, é também comum e corriqueiro no início do ano. Que atire a primeira pedra que nunca teve esse tipo de relapso! kkk... É meio como se algo grande mudasse, mas ainda não nos damos conta o suficiente ou, em outras palavras, sinal de que a adaptação está em processo.
Ao olhar ali, eu rasurando o ano em que estávamos, dizendo ao meu cérebro que de uma vez por todas compreendesse e não se equivocasse mais sobre nossa posição na linha do tempo, me intrigou a razão pela qual isso acontece... Seja uma ideia, um novo número de celular, um novo compromisso na rotina, seja um hábito que deve ser modificado por restrições médicas, ou uma maldita nova regra ortográfica que por sei-lá-que-raios resolveram mudar, esses equívocos acontecem e parece-me pura falta de percepção, desatenção, sempre relacionados à mudança de costumes. Talvez, uma questão de desfoque.
Sinto que, em nossa vida corrida, cada vez mais frequentemente acontecem rasuras gritantes, como essa de errar o ano. Às vezes, olho para trás e ao retomar a algumas coisas, penso: como eu me acostumei com isso? Em que ponto isso virou normal? Pois, em algum momento, parei até de percebê-las. E desorientada, sem saber lidar com o tempo direito, parece que muitos anos passaram... E como Ralph W. Emerson diz "Os anos ensinam muitas coisas que os dias desconhecem."
Hoje, nesse ponto de parada, tive o privilégio de perceber algumas rasuras por fazer. Costumes ora inúteis ora verdadeiramente não saudáveis, hábitos ruins, que merecem um bom tumulto de riscos à caneta. E me questiono: por que ainda erro o ano? Por que ainda me importo com algumas opiniões? Por que me convenço de que algumas lutas não são minhas e deixo atitudes inadmissíveis, que afetam outros, passarem sem eu me manifestar?
Sabe aquela relatividade, de que quando esperamos, o tempo não passa, e quando estamos aproveitando algo muito bom, ele voa? Tem sido assim... Alternando entre minhas próprias sensações, enquanto o tempo é o mesmo. Só reparo no que me afeta, no que importa ao meu redor enquanto ignoro e não me sensibilizo por fatos verdadeiramente relevantes.
Um exemplo que talvez comunique melhor a vocês: viagens. Hum... agora ficou interessante, não?! Pois bem, lembrei esses dias de um dos meus maiores questionamentos quando estava prestes a ir para a Noruega realizar o sonho de ver a Aurora Boreal. Eu me perguntava o quão egoísta eu estava sendo, indo atrás de algo só para mim, enquanto podia dedicar meu dinheiro e tempo para ajudar pessoas que mal conseguem sonhar... Voltei da realização do meu sonho com a 'linda' ideia e um real desprendimento - que ainda reside em mim - de largar tudo e viajar o mundo. Aliás, ideiazinha que está bem na moda...Como heróis, pessoas tem se jogado por aí, como aventureiros em busca de lugares, pessoas, fotos, culturas e distrações realizando o sonho de não ter que lidar com as preocupações da vida enquanto a sociedade local a que pertence rui e sofre diversas outras omissões.
Não, eu não sou tão engajada quanto estou soando agora, mas a verdade é que temos culpa em tudo isso. Algo grande está sendo escrito, e precisava de rasura, mas ao invés disso, tudo nos impulsiona a viver pensando em colorir nossa própria aquarela. Veja bem, não acho errado sair de férias, nem realizar sonhos, nem conhecer lugares... Tampouco é minha intenção constranger ou apontar dedos, porque essa reflexão é sobre a MINHA vida e o que vejo vivendo no mundo. Até acho que existem muitas coisas boas que por si só não são erradas, mas a questão aqui é sermos pessoas engajadas em fielmente buscar nosso bem e o que nos parece bom - como se vivêssemos num filme da Disney - do que o bem comum e uma boa vida a todos. Isso fica de tarefa só para as autoridades que elegemos e criticamos.
Cheguei à conclusão de que tenho que constantemente me lembrar disso, assim como de que não posso pisar no chão com meu pé quebrado - ou melhor, meu novo pé de aço. Principalmente nos momentos em que me acostumo, e em que não há dor, é que essas faltas acontecem - afinal, não me afeta!... Preciso acordar para rasurar minha conformidade com coisas que não chegam à minha vida diretamente, mas afetam meu semelhante, minha sociedade, nosso mundo. Talvez uma luta contra o automático egoísmo imputado em mim... Talvez, perdi o brilho das mais simples coisas da vida por estar distraída. Cometo erros por não estar presente no presente, com olhos e coração abertos. Falta uma sutil sensibilidade para evitar tão gritantes rasuras...
Percebo hoje que é melhor eu rasurar algumas das viagens dos sonhos, para simplesmente dar a chance de outros sonharem também. Mas antes de qualquer rasura grande assim, quero verdadeiramente rasurar a indiferença com que acordo diariamente, a automaticidade da rotina, a insensibilidade aos olhos que de mim se aproximarem ao longo do dia... Porque, no fundo, hoje eu sei que se eu pôr o pé no chão, tudo desmonta, principalmente eu e, sinceramente, talvez o que mais precisamos seja de pessoas desmontadas que saibam rasurar. Em alguns momentos, será necessário eu aprender a me rasurar para dar espaço à escrita do outro.
Meu pé é uma grande rasura. Ele nunca vai ser o mesmo. Não há corretivo ou branquinho ou errorex - como desejar chamar - para depois desenhar em cima desse erro um pé novinho como o que nasceu comigo. Mas eu definitivamente não pretendo rasurar o acidente com meu pé. Talvez tenha sido o ponta pé para os melhores despertamentos da minha vida... Afinal, errando se aprende.
Ao olhar ali, eu rasurando o ano em que estávamos, dizendo ao meu cérebro que de uma vez por todas compreendesse e não se equivocasse mais sobre nossa posição na linha do tempo, me intrigou a razão pela qual isso acontece... Seja uma ideia, um novo número de celular, um novo compromisso na rotina, seja um hábito que deve ser modificado por restrições médicas, ou uma maldita nova regra ortográfica que por sei-lá-que-raios resolveram mudar, esses equívocos acontecem e parece-me pura falta de percepção, desatenção, sempre relacionados à mudança de costumes. Talvez, uma questão de desfoque.
Sinto que, em nossa vida corrida, cada vez mais frequentemente acontecem rasuras gritantes, como essa de errar o ano. Às vezes, olho para trás e ao retomar a algumas coisas, penso: como eu me acostumei com isso? Em que ponto isso virou normal? Pois, em algum momento, parei até de percebê-las. E desorientada, sem saber lidar com o tempo direito, parece que muitos anos passaram... E como Ralph W. Emerson diz "Os anos ensinam muitas coisas que os dias desconhecem."
Hoje, nesse ponto de parada, tive o privilégio de perceber algumas rasuras por fazer. Costumes ora inúteis ora verdadeiramente não saudáveis, hábitos ruins, que merecem um bom tumulto de riscos à caneta. E me questiono: por que ainda erro o ano? Por que ainda me importo com algumas opiniões? Por que me convenço de que algumas lutas não são minhas e deixo atitudes inadmissíveis, que afetam outros, passarem sem eu me manifestar?
Sabe aquela relatividade, de que quando esperamos, o tempo não passa, e quando estamos aproveitando algo muito bom, ele voa? Tem sido assim... Alternando entre minhas próprias sensações, enquanto o tempo é o mesmo. Só reparo no que me afeta, no que importa ao meu redor enquanto ignoro e não me sensibilizo por fatos verdadeiramente relevantes.
Um exemplo que talvez comunique melhor a vocês: viagens. Hum... agora ficou interessante, não?! Pois bem, lembrei esses dias de um dos meus maiores questionamentos quando estava prestes a ir para a Noruega realizar o sonho de ver a Aurora Boreal. Eu me perguntava o quão egoísta eu estava sendo, indo atrás de algo só para mim, enquanto podia dedicar meu dinheiro e tempo para ajudar pessoas que mal conseguem sonhar... Voltei da realização do meu sonho com a 'linda' ideia e um real desprendimento - que ainda reside em mim - de largar tudo e viajar o mundo. Aliás, ideiazinha que está bem na moda...Como heróis, pessoas tem se jogado por aí, como aventureiros em busca de lugares, pessoas, fotos, culturas e distrações realizando o sonho de não ter que lidar com as preocupações da vida enquanto a sociedade local a que pertence rui e sofre diversas outras omissões.
Não, eu não sou tão engajada quanto estou soando agora, mas a verdade é que temos culpa em tudo isso. Algo grande está sendo escrito, e precisava de rasura, mas ao invés disso, tudo nos impulsiona a viver pensando em colorir nossa própria aquarela. Veja bem, não acho errado sair de férias, nem realizar sonhos, nem conhecer lugares... Tampouco é minha intenção constranger ou apontar dedos, porque essa reflexão é sobre a MINHA vida e o que vejo vivendo no mundo. Até acho que existem muitas coisas boas que por si só não são erradas, mas a questão aqui é sermos pessoas engajadas em fielmente buscar nosso bem e o que nos parece bom - como se vivêssemos num filme da Disney - do que o bem comum e uma boa vida a todos. Isso fica de tarefa só para as autoridades que elegemos e criticamos.
Cheguei à conclusão de que tenho que constantemente me lembrar disso, assim como de que não posso pisar no chão com meu pé quebrado - ou melhor, meu novo pé de aço. Principalmente nos momentos em que me acostumo, e em que não há dor, é que essas faltas acontecem - afinal, não me afeta!... Preciso acordar para rasurar minha conformidade com coisas que não chegam à minha vida diretamente, mas afetam meu semelhante, minha sociedade, nosso mundo. Talvez uma luta contra o automático egoísmo imputado em mim... Talvez, perdi o brilho das mais simples coisas da vida por estar distraída. Cometo erros por não estar presente no presente, com olhos e coração abertos. Falta uma sutil sensibilidade para evitar tão gritantes rasuras...
Percebo hoje que é melhor eu rasurar algumas das viagens dos sonhos, para simplesmente dar a chance de outros sonharem também. Mas antes de qualquer rasura grande assim, quero verdadeiramente rasurar a indiferença com que acordo diariamente, a automaticidade da rotina, a insensibilidade aos olhos que de mim se aproximarem ao longo do dia... Porque, no fundo, hoje eu sei que se eu pôr o pé no chão, tudo desmonta, principalmente eu e, sinceramente, talvez o que mais precisamos seja de pessoas desmontadas que saibam rasurar. Em alguns momentos, será necessário eu aprender a me rasurar para dar espaço à escrita do outro.
Meu pé é uma grande rasura. Ele nunca vai ser o mesmo. Não há corretivo ou branquinho ou errorex - como desejar chamar - para depois desenhar em cima desse erro um pé novinho como o que nasceu comigo. Mas eu definitivamente não pretendo rasurar o acidente com meu pé. Talvez tenha sido o ponta pé para os melhores despertamentos da minha vida... Afinal, errando se aprende.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Dó
Que título esquisito, pequeno demais, né? Mas é sobre o que eu preciso falar. E por mais que, agora, no ponto de parada, já se ouça a Alê cantarolando baixinho vez ou outra - e eu me pego de surpresa e sorrio - não me refiro à nota musical, mas ao sentimento de pena mesmo... (não vou fazer ressalva pra explicar "pena" também, acho que já deu pra entender rs). Ultimamente, tenho recebido visitas, recados de amigos distantes, mensagens mostrando preocupação e cuidado comigo. Muitos deles dizem coisas como: "Vai dar tudo certo", "Estou orando por você", "O importante é levar tudo isso da melhor maneira possível", "Fico feliz de te ver animada", "Você vai tirar isso de letra!", "Vai passar!", "Logo logo, tudo volta ao normal" etc. E constantemente minha mãe repara também e me diz: "Olha só, quantas pessoas te querem bem!".
Eu entendo a ótima intenção de todos, e eu mesma sei que ninguém deseja quebrar tão exoticamente o pé como eu e, portanto, encontrar-se na minha situação. Acontece que a própria fala da minha mãe bem como as outras me faz parecer, de alguma maneira, destoante do que eu estou experimentando na realidade. Você pode estranhar, mas meu sentimento tá mais próximo de leveza do que de dificuldade. E cheguei a um ponto em que só consigo ver esse episódio do pé como algo verdadeiramente bom.
Então, quando alguém chega e diz que vai passar, fico pensando que a pessoa não tem noção do quão bom tudo isso tá sendo para mim... Esse tempo, essa parada, a aproximação com meus pais, reaprender a não fazer nada, a viver simples, a diminuição do ritmo, da carga, da cobrança... Parece que é tempo de ser adolescente com uma cabeça de adulto e, quer saber, é bom demais viver e aprender. Bom demais acordar, olhar meu pé e sorrir, sonhar...
Agora que as fases da inconformação e da ansiedade passaram, vivo um novo momento que só experimenta quem pára um pouco para observar: a percepção do que é verdadeiro. Tem sido tão positivo que até me esqueci de escrever, e eu sempre escrevo quando algo me incomoda. Hoje tive que me convencer a dedicar um tempo aqui para explicar - o que, também, de certa forma me incomoda: as pessoas não conseguirem ver que, na verdade, elas estão passando por dificuldades bem maiores que a minha e não estão parando... Então, pela primeira vez, tenho dois pedidos com esse post. Primeiro, peço que tente desconstruir a ideia de que limitação é algo negativo, e perceba que, na verdade, por natureza, somos todos limitados. Segundo, diminua o seu ritmo, pra que você corre? Tem muitas frases bonitas que publicamos no Facebook, no status, nas mídias, mas a vida realmente escorre enquanto você corre pra fazer o que é urgente, mas não necessariamente importante. E quem fala é a menina que nunca pára, ou pelo menos, não parava; a menina que não sabia simplesmente "não fazer nada" por sequer um minuto.
Outra abordagem que eu queria fazer, é que, pensando aqui, seria bem legal se a gente pudesse também ver o coração da pessoa, o caráter, a índole da mesma forma como enxergamos as limitações físicas. Porque o olhar das pessoas é muito de "dó", de "pena", e eu senti um pouco disso esses dias, estando assim. E isso é absurdo!!! Porque ninguém escolhe ficar assim... Por isso, o que seria incrível mesmo talvez fosse olhar para a desonestidade de alguém e ele se constranger... Obvio que é um pensamento totalmente de justiça absurdo, nunca que daria certo e Deus fez como é melhor mesmo para nós. E isso não acabaria com os olhares de dó para mim... rs
Enfim, saiba que eu estou bem, e entendo as preocupações e desejos para que eu saia dessa. Só queria que você soubesse que "essa" em que eu estou, não é "uma bad" ou "pior", ou qualquer dificuldade ou coisa ruim. Eu não creio nisso, e o sentimento é de paz e felicidade em quase todo tempo. (e, não, não é denegação da situação: é um baita de um aprendizado privilegiado). Afinal, você já pensou que não utilizamos todos nossos membros, músculos e ossos o tempo todo? Há tempo para tudo - e para cada parte. Eu continuo a remar, entendi que nunca precisei do pé para isso...
Da menina que está aprendendo a se movimentar, um passo por vez, feliz por notar o essencial: tem tudo o que precisa - e mais!
Eu entendo a ótima intenção de todos, e eu mesma sei que ninguém deseja quebrar tão exoticamente o pé como eu e, portanto, encontrar-se na minha situação. Acontece que a própria fala da minha mãe bem como as outras me faz parecer, de alguma maneira, destoante do que eu estou experimentando na realidade. Você pode estranhar, mas meu sentimento tá mais próximo de leveza do que de dificuldade. E cheguei a um ponto em que só consigo ver esse episódio do pé como algo verdadeiramente bom.
Então, quando alguém chega e diz que vai passar, fico pensando que a pessoa não tem noção do quão bom tudo isso tá sendo para mim... Esse tempo, essa parada, a aproximação com meus pais, reaprender a não fazer nada, a viver simples, a diminuição do ritmo, da carga, da cobrança... Parece que é tempo de ser adolescente com uma cabeça de adulto e, quer saber, é bom demais viver e aprender. Bom demais acordar, olhar meu pé e sorrir, sonhar...
Agora que as fases da inconformação e da ansiedade passaram, vivo um novo momento que só experimenta quem pára um pouco para observar: a percepção do que é verdadeiro. Tem sido tão positivo que até me esqueci de escrever, e eu sempre escrevo quando algo me incomoda. Hoje tive que me convencer a dedicar um tempo aqui para explicar - o que, também, de certa forma me incomoda: as pessoas não conseguirem ver que, na verdade, elas estão passando por dificuldades bem maiores que a minha e não estão parando... Então, pela primeira vez, tenho dois pedidos com esse post. Primeiro, peço que tente desconstruir a ideia de que limitação é algo negativo, e perceba que, na verdade, por natureza, somos todos limitados. Segundo, diminua o seu ritmo, pra que você corre? Tem muitas frases bonitas que publicamos no Facebook, no status, nas mídias, mas a vida realmente escorre enquanto você corre pra fazer o que é urgente, mas não necessariamente importante. E quem fala é a menina que nunca pára, ou pelo menos, não parava; a menina que não sabia simplesmente "não fazer nada" por sequer um minuto.
Outra abordagem que eu queria fazer, é que, pensando aqui, seria bem legal se a gente pudesse também ver o coração da pessoa, o caráter, a índole da mesma forma como enxergamos as limitações físicas. Porque o olhar das pessoas é muito de "dó", de "pena", e eu senti um pouco disso esses dias, estando assim. E isso é absurdo!!! Porque ninguém escolhe ficar assim... Por isso, o que seria incrível mesmo talvez fosse olhar para a desonestidade de alguém e ele se constranger... Obvio que é um pensamento totalmente de justiça absurdo, nunca que daria certo e Deus fez como é melhor mesmo para nós. E isso não acabaria com os olhares de dó para mim... rs
Enfim, saiba que eu estou bem, e entendo as preocupações e desejos para que eu saia dessa. Só queria que você soubesse que "essa" em que eu estou, não é "uma bad" ou "pior", ou qualquer dificuldade ou coisa ruim. Eu não creio nisso, e o sentimento é de paz e felicidade em quase todo tempo. (e, não, não é denegação da situação: é um baita de um aprendizado privilegiado). Afinal, você já pensou que não utilizamos todos nossos membros, músculos e ossos o tempo todo? Há tempo para tudo - e para cada parte. Eu continuo a remar, entendi que nunca precisei do pé para isso...
Da menina que está aprendendo a se movimentar, um passo por vez, feliz por notar o essencial: tem tudo o que precisa - e mais!
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Péadinhas
Por esses dias, minha mãe disse: "Fica aí, hein!" - como se eu pudesse sair andando... Até as muletas estavam fora do meu alcance! Essa e outras frases têm aparecido muito, mesmo que sem querer, tais como: "Não vai sair correndo!", "Não vá a lugar algum!", "E, aí, tudo de pé?" etc. Dizem que, às vezes, a melhor forma de se encarar uma situação difícil é com bom humor. Bem, a minha situação definitivamente não é fácil. E, se for assim, piadinhas não farão falta em todo tempo que estiver parada! Tenho certeza!
Porém, a mais nova 'péada' é outra... Um dia desses, ao me perguntarem como eu estava, respondi "Tudo sob controle!". Essa resposta ficou ecoando na minha mente... "Sob controle... sob controle... sob controle...". Sob controle? Tipo, tudo certo? Me deu vontade de rir! - Certeza de quê? Controle de quem? - Fiquem tranquilos, está tudo bem. Não estou descontrolada, nem cheia de dúvidas. Mas acredito que esteja um pouco complicado falar de controle quando a sensação é de que algo parece me escapar das rédeas... Algo me foge quando pisco meus olhos. Essa é a sensação que percebo aqui, parada. Só que, de alguma maneira, ela não chegou agora. Parece que ela sempre existiu e esteve perto de mim...
Quando faço um arremesso, por mais bem treinada e concentrada que esteja, entre os milésimos de piscar de olhos, algo parece não me pertencer. É como se eu não tivesse o domínio total da situação ou sequer garantia de como as coisas vão acontecer depois que eu agir. Sabe quando a gente joga dados e sente aquele 'acaso' de não estar mais em nossas mãos no micromomento que existe antes de saber o resultado? Ou, ainda, quando movemos uma peça no tabuleiro sem saber o que aquela jogada vai desencadear?! É mais ou menos isso.
Acontece que eu não acredito em sorte ou acaso. Porque, esse suspiro prévio que damos soa como uma oração, e o que decorre não é um 'tanto faz'. Pelo contrário, parece estar num script. E, talvez, por isso, essa sensação, de que milésimos me suspendem no ar, me intriga. E acontece e sinto em vários momentos. Parece loucura? A gente fechar os olhos, e de alguma maneira, coração saber "não depende 100% de mim"? Existe algo que foge do meu controle, e eu não consigo ver! Como se o meu quadro fizesse parte de uma exposição em que eu não sou o artista. Eu ajudo nas probabilidades das coisas, até com certa autonomia, mas tem um limite invisível, que após ultrapassado, nada eu posso fazer ou mudar, e é quando me foge o controle...
Em questão de segundos, antes de pular na água, não apenas dessa vez que me machuquei, mas em quase todas, da ponte, em mergulhos, na caverna, na praia, no mar e no rio, eu sempre senti isso. Sempre que me arrisco, ou que há riscos ou chances. Eu não tenho o controle do que vai acontecer. Apenas da responsabilidade de me colocar onde me coloquei e do gesto e atitude que decidi tomar. Em toda viagem que planejei, eu nunca sei o que vai transcorrer, quem vou encontrar, que histórias ouvirei, que perrengues passarei, que mudanças aceitarei, por mais planejados que estejam os dias e os lugares!
Outro exemplo: nunca sei o que vai acontecer ao ir dormir. Você já pensou isso? Mas mesmo assim dormimos, sem saber se vamos acordar. Parece que assim, se entregando, a minha história vai fazendo parte de uma maior, de algo maior - que eu também não sei definir, mas que é como o sonho que a gente tem e não se lembra na manhã seguinte. Não temos controle do que sonharemos, mas decidimos adormecer. E as coisas, dessa maneira, parecem ocupar o seu devido lugar, e eu a ser quem devo ser, naturalmente. Vêm a mim as reações de minhas ações, que me dão a sensação de estar sob controle, mas que não é todo meu.
Então, o que fazer com essa informação? "Sob controle". Acho que só mesmo repetir o que eu fiz: sorrir. Entre o piscar dos olhos, não sei o que acontecerá. Essa sensação, me veio aqui, parada, novamente, mas, agora, em forma de piada. Não por ser cômica, mas por ser uma estranha segurança, de que, ainda que eu seja responsável pelos meus atos, a minha história não depende só de mim. E a péadinha é "ainda bem", pois, se dependesse, seria uma história um tanto 'debilitada', 'manca' e 'sem pé' nem cabeça, a partir daqui, desse ponto de parada. Assim, como o dia vem após a noite, a luz após a escuridão, me acompanha uma única certeza: a de que não vai ser uma mera consequência de meus atos e escolhas. Conta com algo maior que eu. E está tudo certo. Tudo sob controle.
"E, aí?! Como você anda?" - De muletas?!?!... "Como vão as coisas?" - Caminhando?!?! Rs "Como foi seu começo de ano?" - Comecei com o pé direito... "Por onde você anda?", "Mas, e aí, melhorou?" - Um passo por vez! (só que não né...).
Pois é, piadas não faltam. A cada dia, surge uma nova. Enfim, dancei! Comecei o ano com o pé esquerdo. Ainda não pisei com o pé direito em 2015. Senti o break, pronta pra pular carnaval e só dando mancada (quem me dera... nem isso!). Bem, pode deixar, não sairei do lugar e aceitarei ser chamada de "ponto e vírgula" por um bom tempo quando voltar a andar...
Pois é, piadas não faltam. A cada dia, surge uma nova. Enfim, dancei! Comecei o ano com o pé esquerdo. Ainda não pisei com o pé direito em 2015. Senti o break, pronta pra pular carnaval e só dando mancada (quem me dera... nem isso!). Bem, pode deixar, não sairei do lugar e aceitarei ser chamada de "ponto e vírgula" por um bom tempo quando voltar a andar...
Porém, a mais nova 'péada' é outra... Um dia desses, ao me perguntarem como eu estava, respondi "Tudo sob controle!". Essa resposta ficou ecoando na minha mente... "Sob controle... sob controle... sob controle...". Sob controle? Tipo, tudo certo? Me deu vontade de rir! - Certeza de quê? Controle de quem? - Fiquem tranquilos, está tudo bem. Não estou descontrolada, nem cheia de dúvidas. Mas acredito que esteja um pouco complicado falar de controle quando a sensação é de que algo parece me escapar das rédeas... Algo me foge quando pisco meus olhos. Essa é a sensação que percebo aqui, parada. Só que, de alguma maneira, ela não chegou agora. Parece que ela sempre existiu e esteve perto de mim...
Quando faço um arremesso, por mais bem treinada e concentrada que esteja, entre os milésimos de piscar de olhos, algo parece não me pertencer. É como se eu não tivesse o domínio total da situação ou sequer garantia de como as coisas vão acontecer depois que eu agir. Sabe quando a gente joga dados e sente aquele 'acaso' de não estar mais em nossas mãos no micromomento que existe antes de saber o resultado? Ou, ainda, quando movemos uma peça no tabuleiro sem saber o que aquela jogada vai desencadear?! É mais ou menos isso.
Acontece que eu não acredito em sorte ou acaso. Porque, esse suspiro prévio que damos soa como uma oração, e o que decorre não é um 'tanto faz'. Pelo contrário, parece estar num script. E, talvez, por isso, essa sensação, de que milésimos me suspendem no ar, me intriga. E acontece e sinto em vários momentos. Parece loucura? A gente fechar os olhos, e de alguma maneira, coração saber "não depende 100% de mim"? Existe algo que foge do meu controle, e eu não consigo ver! Como se o meu quadro fizesse parte de uma exposição em que eu não sou o artista. Eu ajudo nas probabilidades das coisas, até com certa autonomia, mas tem um limite invisível, que após ultrapassado, nada eu posso fazer ou mudar, e é quando me foge o controle...
Em questão de segundos, antes de pular na água, não apenas dessa vez que me machuquei, mas em quase todas, da ponte, em mergulhos, na caverna, na praia, no mar e no rio, eu sempre senti isso. Sempre que me arrisco, ou que há riscos ou chances. Eu não tenho o controle do que vai acontecer. Apenas da responsabilidade de me colocar onde me coloquei e do gesto e atitude que decidi tomar. Em toda viagem que planejei, eu nunca sei o que vai transcorrer, quem vou encontrar, que histórias ouvirei, que perrengues passarei, que mudanças aceitarei, por mais planejados que estejam os dias e os lugares!
Outro exemplo: nunca sei o que vai acontecer ao ir dormir. Você já pensou isso? Mas mesmo assim dormimos, sem saber se vamos acordar. Parece que assim, se entregando, a minha história vai fazendo parte de uma maior, de algo maior - que eu também não sei definir, mas que é como o sonho que a gente tem e não se lembra na manhã seguinte. Não temos controle do que sonharemos, mas decidimos adormecer. E as coisas, dessa maneira, parecem ocupar o seu devido lugar, e eu a ser quem devo ser, naturalmente. Vêm a mim as reações de minhas ações, que me dão a sensação de estar sob controle, mas que não é todo meu.
Então, o que fazer com essa informação? "Sob controle". Acho que só mesmo repetir o que eu fiz: sorrir. Entre o piscar dos olhos, não sei o que acontecerá. Essa sensação, me veio aqui, parada, novamente, mas, agora, em forma de piada. Não por ser cômica, mas por ser uma estranha segurança, de que, ainda que eu seja responsável pelos meus atos, a minha história não depende só de mim. E a péadinha é "ainda bem", pois, se dependesse, seria uma história um tanto 'debilitada', 'manca' e 'sem pé' nem cabeça, a partir daqui, desse ponto de parada. Assim, como o dia vem após a noite, a luz após a escuridão, me acompanha uma única certeza: a de que não vai ser uma mera consequência de meus atos e escolhas. Conta com algo maior que eu. E está tudo certo. Tudo sob controle.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Datas
2 de março de 1989
dezembro de 1995
julho de 1996
janeiro de 2000
26 julho de 2006
26 de março de 2007
30 de julho de 2009
junho de 2010
janeiro de 2011
8 de agosto de 2011
8 de agosto de 2011
02 de dezembro de 2012
26 de janeiro de 2013
26 de dezembro de 2013
29 de dezembro de 2014
Às vezes, me sinto mais determinada por datas do que por qualquer descrição adjetiva. Esses números vão e vem em minha cabeça, lembrando-me de marco, marcas de quem sou, fui, do que fiz ou do que aconteceu a mim.
Eu sempre fui muito boa com datas. Sei de cor o aniversário de quase todos meus amigos e da minha família e de seus casamentos. Comumente, sei em que fase da lua estamos, e nunca me esqueço dos mil afazeres marcados na minha agenda mental. Mas, talvez isso não fosse emocionante o bastante para mim, e no decorrer do tempo, adicionei mais alguns marcos, como acidentes, quebra de braço(s), eventos e festas, namoros, viagens, mudanças de casa, escola, fases...
Em suma, as datas nos ensinam a lembrar. Ao recordarmos alguns desses marcos, ficamos cheios de alegria e queremos celebrar. Alguns outros, nos servem de lições aprendidas, e até como um separador de águas: de quem éramos antes e de quem nos tornamos depois. E então, esta semana me deparei com esses dois: 2 anos da minha ida a Noruega - experiência surreal e sonho realizado que não me canso de falar ( e vai ser bem aquelas histórias que os meus filhos vão reclamar... "lá vem a história da Aurora Boreal..." rs) - e um mês de um acidente feio que, por estar tão próximo ainda, mal consigo ver claramente tudo o que ele vai significar, como vai impactar na minha vida e sequer como serei a partir dele.
Datas são relevantes, pois, de alguma maneira, nos marcam, nos determinam. Algumas se tornam mais importantes que outras. E, nesse momento, em que duas delas se encontraram para discutir sobre minha vida, parece que eu só fiquei olhando a conversa, um tanto perplexa... No debate, 26/01/13 constatou que só agora eu poderia comemorar em paz e que não foi responsável por tudo o que veio depois; 29/12/14 disse que estava, até então, com perda de memória, mas que, aos poucos, alguns fatos começam a fazer sentido... Por fim, concordaram que a primeira lição reside no tempo entre elas, nas outras datas que entre elas delimitaram uma fase da minha vida. Será que elas sabiam que eu as observava conversando?
Talvez esse próprio ponto de parada seja um marco mais para frente... É difícil saber ao certo, ainda é muito recente. Mas, neste momento, ao olhar para o recheio do sanduíche de 26/01/13 e 29/12/14 vai me fazer compreender um pouco mais sobre a saúde da minha vida, sobre o que preencheu essa fase. O bom de ter uma boa memória para datas é que eu nunca esqueço as mais belas experiências nem as mais duras lições que, em conjunto, me firmam os passos e me lembram de quem sou.
Agora, vai, me diz: quais são suas datas? Diga-me quais são e te direi quem és!
Agora, vai, me diz: quais são suas datas? Diga-me quais são e te direi quem és!
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Edição limitada
Cem dias entre teto e cama. Talvez um pouco mais do que isso. Assim como no livro do Amyr. Cem dias e mais alguns entre dois limites. No meu caso, acrescenta-se uma porcentagem razoável de exagero, afinal, sei que terei momentos fora do teto e da cama. Mas não tenho dúvidas de que eles serão a maior parte do tempo os meus delimitadores... acima e abaixo.
Desde pequena, sempre gostava de me imaginar com super-poderes, meio super-herói... voando, respirando debaixo da água, salvando o dia, salvando o mundo, vivendo por algo maior, ora uma cientista ora uma desbravadora que descobre algo que muda a história da humanidade... Hoje eu considerei, pela primeira vez, as minhas limitações. Não tenho os super-poderes que sonhei. Ao mesmo tempo, consegui alcançar muitas coisas extraordinárias. Talvez foi assim que os tão incríveis poderes permaneceram em mim, ganhando uma nova forma de existência na minha vida adulta: sempre tendo em vista alguma maneira de ainda me encontrar especial ou visionária ou com uma missão única.
Mas agora parada no que alguns chamariam de "limitação"- como se antes não fosse - a moeda caiu de coroa para baixo, e me perguntei: e se minha vida não for para marcar o Mundo com um grande feito meu? E se eu for, na realidade, só mais uma pessoa normal? E se, na história do super-herói, eu faço parte de quem precisa de ajuda, de quem é salva e resgatada?
Para quem sempre acreditou que o limite do céu poderia ser, na verdade, mais que o Espaço, e que, bem fundo no mar, existe um novo mundo a se descobrir, bem como toda a Terra possui uma extensão imensa de fronteiras e lugares para se explorar, a minha mente nunca se aquietou sob um teto - nem mesmo quando isso era mais inatingível do que agora, em minha atual vida livre e 'independente' de adulta. Na mania de escrever na agenda todo dia onde eu estou, observei que nos últimos dois anos, 58% dos meus dias eu passei sobre teto e cama que não eram os meus: nem na minha casa em São Paulo nem em Campinas. E, sinceramente, sequer passei muito tempo sob tetos...
Você pode achar normal tudo isso. Mas mesmo que cômico é também fatídico. Uma adulta descobrindo que não possui super-poderes. E a dor do choque da queda não me espantou tanto quanto a dor me descobrir falível, quebrável, vencível... limitada. Pensar que eu não sou tão ilimitada quanto pensava ser foi pior que descobrir que o Papai Noel não existe. Foi como ver pela primeira vez que o que o mágico fez foi um truque. E é doloroso me achar assim, infantil, ingênua... Será que por tanto tempo eu vivi parcialmente na realidade? E, portanto, ser tão sonhadora é algo ruim?
Então, voltando-me à história do herói... Por que será que sempre queremos ser o protagonista com super-poderes? Sonhamos em ser mais do que somos, sempre melhores. Queremos solução e queremos trazê-la por nossas próprias mãos. Mas, ainda que o herói leve o nome do filme, os aplausos e a mocinha, a aventura nunca acaba, o vilão nunca pára de o perseguir... Talvez feliz mesmo seja quem foi resgatado, quem ia ser morto e ganhou nova chance, quem viveu pra depois contar o que mudou para sempre sua história.
Talvez o teto ao qual constantemente tenho encarado, e a cama da qual necessito para sustentar meu corpo em paz estejam aqui para me lembrar disso. Eu sou limitada. Meu lugar não é sob novas aventuras e perigos todo dia. Nem sempre eu vou vencer. Sou mortal. Eu não voo nem respiro debaixo d'água, nem luto contra os bandidos. Meus ossos quebram. Há acidentes sem volta. Eu choro. Eu posso parar.
Então passo a considerar que isso não vai me impedir de viver coisas extraordinárias e ter experiências incríveis. Parar, às vezes, é o que vai fazer o resgate acontecer. Estar em um mesmo lugar faz a salvação chegar. A limitação sempre existiu, ainda que a gente só a enxergue quando estamos parados. É aliviador saber que eu não tenho que salvar o dia. Só se salva o que é valioso, e sou eu quem precisa de resgate. Assim, sinto-me limitada sem me sentir mal por não ser a heroína. Pelo contrário, especial: sou a mocinha que mesmo sem poderes pode voar nos braços do herói, que mesmo sem matar os vilões, sente o alívio e a paz de vencer. É se encontrar como uma edição limitada: com data de expiração, mas muito bem apreciada. Não preciso mais de super-poderes. Minha história pode não virar filme, mas aqui e assim dá pra se viver coisas inacreditáveis também.
Da menina que ainda acredita em ir pro Espaço e desbravar o Mundo, mas que está aprendendo a apreciar a história sem ser a protagonista.
Desde pequena, sempre gostava de me imaginar com super-poderes, meio super-herói... voando, respirando debaixo da água, salvando o dia, salvando o mundo, vivendo por algo maior, ora uma cientista ora uma desbravadora que descobre algo que muda a história da humanidade... Hoje eu considerei, pela primeira vez, as minhas limitações. Não tenho os super-poderes que sonhei. Ao mesmo tempo, consegui alcançar muitas coisas extraordinárias. Talvez foi assim que os tão incríveis poderes permaneceram em mim, ganhando uma nova forma de existência na minha vida adulta: sempre tendo em vista alguma maneira de ainda me encontrar especial ou visionária ou com uma missão única.
Mas agora parada no que alguns chamariam de "limitação"- como se antes não fosse - a moeda caiu de coroa para baixo, e me perguntei: e se minha vida não for para marcar o Mundo com um grande feito meu? E se eu for, na realidade, só mais uma pessoa normal? E se, na história do super-herói, eu faço parte de quem precisa de ajuda, de quem é salva e resgatada?
Para quem sempre acreditou que o limite do céu poderia ser, na verdade, mais que o Espaço, e que, bem fundo no mar, existe um novo mundo a se descobrir, bem como toda a Terra possui uma extensão imensa de fronteiras e lugares para se explorar, a minha mente nunca se aquietou sob um teto - nem mesmo quando isso era mais inatingível do que agora, em minha atual vida livre e 'independente' de adulta. Na mania de escrever na agenda todo dia onde eu estou, observei que nos últimos dois anos, 58% dos meus dias eu passei sobre teto e cama que não eram os meus: nem na minha casa em São Paulo nem em Campinas. E, sinceramente, sequer passei muito tempo sob tetos...
Você pode achar normal tudo isso. Mas mesmo que cômico é também fatídico. Uma adulta descobrindo que não possui super-poderes. E a dor do choque da queda não me espantou tanto quanto a dor me descobrir falível, quebrável, vencível... limitada. Pensar que eu não sou tão ilimitada quanto pensava ser foi pior que descobrir que o Papai Noel não existe. Foi como ver pela primeira vez que o que o mágico fez foi um truque. E é doloroso me achar assim, infantil, ingênua... Será que por tanto tempo eu vivi parcialmente na realidade? E, portanto, ser tão sonhadora é algo ruim?
Então, voltando-me à história do herói... Por que será que sempre queremos ser o protagonista com super-poderes? Sonhamos em ser mais do que somos, sempre melhores. Queremos solução e queremos trazê-la por nossas próprias mãos. Mas, ainda que o herói leve o nome do filme, os aplausos e a mocinha, a aventura nunca acaba, o vilão nunca pára de o perseguir... Talvez feliz mesmo seja quem foi resgatado, quem ia ser morto e ganhou nova chance, quem viveu pra depois contar o que mudou para sempre sua história.
Talvez o teto ao qual constantemente tenho encarado, e a cama da qual necessito para sustentar meu corpo em paz estejam aqui para me lembrar disso. Eu sou limitada. Meu lugar não é sob novas aventuras e perigos todo dia. Nem sempre eu vou vencer. Sou mortal. Eu não voo nem respiro debaixo d'água, nem luto contra os bandidos. Meus ossos quebram. Há acidentes sem volta. Eu choro. Eu posso parar.
Então passo a considerar que isso não vai me impedir de viver coisas extraordinárias e ter experiências incríveis. Parar, às vezes, é o que vai fazer o resgate acontecer. Estar em um mesmo lugar faz a salvação chegar. A limitação sempre existiu, ainda que a gente só a enxergue quando estamos parados. É aliviador saber que eu não tenho que salvar o dia. Só se salva o que é valioso, e sou eu quem precisa de resgate. Assim, sinto-me limitada sem me sentir mal por não ser a heroína. Pelo contrário, especial: sou a mocinha que mesmo sem poderes pode voar nos braços do herói, que mesmo sem matar os vilões, sente o alívio e a paz de vencer. É se encontrar como uma edição limitada: com data de expiração, mas muito bem apreciada. Não preciso mais de super-poderes. Minha história pode não virar filme, mas aqui e assim dá pra se viver coisas inacreditáveis também.
Da menina que ainda acredita em ir pro Espaço e desbravar o Mundo, mas que está aprendendo a apreciar a história sem ser a protagonista.
domingo, 18 de janeiro de 2015
Segundas-feiras
Segundas-feiras... Sempre me rendem histórias pra contar...
"Fui surpreendido por uma onda na contramão, não tive como escapar e levei um banho gelado. O cabelo pingando, as roupas encharcadas e um fiozinho de água escorrendo pela nuca e descendo as costas, por dentro da blusa, coroavam uma típica segunda-feira. Como um gato molhado, me enxuguei chacoalhando a cabeça, para não tirar as mãos dos remos.
O trabalho começou cedo, ainda no escuro, após um sublime café da manhã, que levou quarenta minutos para ser consumido. O mar estava agitado novamente, e o barômetro, caindo aos poucos, anunciava uma nova depressão. Mas não me incomodava mais com isso.
Na verdade, o grande problema não era a força do mar, mas sua direção; enquanto as coisas continuassem como estavam, e eu pudesse remar na boa direção, não teria com que me preocupar."
(Cem dias entre céu e mar, Amyr Klink.)
Segunda vez que uma segunda-feira marca minha história com um acidente. Ambas as vezes, fui parada para reaprender a ver a vida com novos olhos. Da primeira vez, com 18 anos, competitiva, tentando fazer meu dia melhor. Agora, com 25 anos, irrequieta, tentando ter 100% de aproveitamento do dia. Em ambas, prepotente. Hoje, me encontro em meu segundo grande ponto de parada. E sinto-me sortuda. Nem todo mundo tem essa chance... Momento de pôr no trilho o trem que descarrilhou.
Era segunda-feira, março de 2007: rompimento do meu LCP (Ligamento cruzado posterior) do joelho esquerdo em um jogo de handball nas Calouríadas da Universidade. Segunda-feira, dezembro de 2014: fraturas múltiplas do calcâneo ao pular de uma pedra em um rio. Mudei muito entre esses acidentes. Passei a ser apaixonada pela vida e a não ver mais as segundas-feiras como algo penoso. Cada dia é um novo começo, temperado por inéditas experiências e passível à escrita de histórias inigualáveis. Mas nem sempre enxerguei assim...
Entretanto, incrivelmente, sinto que lidei melhor com o acidente da primeira vez. Daquela vez, algo me parou, talvez para eu aprender a ver a beleza da vida todo dia. Foi como se eu não ligasse, como se o filme nem fosse mesmo tão interessante... Sabia que ia passar e eu ia superar. Desta vez, foi como se cortassem o filme antes de chegar o final, e eu não estava o assistindo, eu era parte dele! Talvez tenha sido a velocidade com que eu vinha, talvez foi a intensidade desregrada. Não sei. Sei que 'fui surpreendida por uma onda na contramão, não tive como escapar e levei um banho gelado. E pode ser que na verdade, o grande problema não seja a força do mar, mas sua direção'.
O problema nunca foi o acidente, mas a maneira como dali em diante lidei com ele. Quero que esse ponto de parada me relembre e aponte a boa direção para quando eu voltar a remar... Segundas-feiras, terças, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos, que em quaisquer dias, com mar agitado ou não, que haja mais clareza...Em 2007, aprendi a valorizar cada dia. Em 2014/2015, quero aprender a lidar com as ondas que virão, mais uma vez amadurecendo com essa situação.
Gira-gira
"Movimento Circular Uniforme". Foi um dentre outros tolos pensamentos que tive no momento: em meio a uma boa leitura durante a tarde, minhas pálpebras pesaram e resolvi fechá-las. Talvez fosse o calor, ou algum resquício dos remédios do pós-cirúrgico, mas tudo começou a rodar. O que uma pessoa normal pensaria? "Uma crise de labirintite.", "Tontura", "Devo chamar alguém!"... É, não foi o que eu pensei... "Uh!Tudo tá girando!"," Movimento Circular Uniforme...". Sempre gostei de Física.
Enquanto tudo girava, minha decisão foi continuar de olhos fechados e aproveitar. Estava bom... Sabe aquela sensação de êxtase quando gente está no ápice da velocidade no gira-gira? Sempre gostei de balanço, mas meu brinquedo favorito nos parquinhos sempre foi o gira-gira. Creio que por causa dessa sensação, meio de outro planeta. E ali estava, sentindo-a de novo, sem sair do lugar...
E obviamente, isso me fez pensar, o que está me dando impulso? E, mesmo que esteja boa a sensação, quando pára de rodar? Aqui, parada, cheguei a mais uma conclusão. Nos últimos 2 anos, realizei muitas coisas e foi incrível, como a sensação de êxtase desse brinquedo. Mas concluí que isso não me levou muito adiante. Veja, realizei dois dos meus maiores sonhos: ver a Aurora Boreal e aprender a mergulhar. Além disso, tive a oportunidade de conhecer mil lugares e viajar mais do que em todos os outros anos da minha vida somados. Eu só girei. Gostei. MUITO! Mas só girei... Digo isso, sem frustração, e também só consegui enxergar agora que eu estou parada.
Tem mais uma brincadeira assim: aquela de girar em um cabo de vassoura e sair correndo para realizar uma tarefa, como acertar uma bola no gol ou levar uma colher com ovo atravessando um campo de futebol. É interessante pensar que a gente tem dificuldade de realizar algumas tarefas se vimos de consecutivos giros, de movimentos contínuos... Meio tontos, cambaleamos e, ainda que tenhamos os olhos fixos no alvo, não conseguimos. Mal paramos em pé!
Hoje, em uma leitura da obra de Amyr Klink, "Cem dias entre céu e mar", em que fala sobre sua travessia pelo Atlântico Sul, da África (Namíbia) ao Brasil, me deparei com o
seguinte trecho:
"Se, de um lado, tudo estava em movimento, brusco ou lento, o barco balançando, as ondas correndo, ou as nuvens e os astros que discretos se moviam, por outro lado, descobri uma exceção - algo imóvel e estável -, a linha do horizonte. Única forma fixa no oceano, era dele que precisava para conseguir minhas posições, e, ao se encontrar perdido entre nuvens baixas ou escondido atrás de altas ondas, fazia-me sentir um pouco triste.
O horizonte, linha perfeita e segura, fronteira do destino que se renova eternamente e que abriga nossos objetivos, passou a ser meu ponto de apoio e companheiro de viagem. Enquanto estivesse à vista, sentia-me disposto e em segurança; mas, quando desaparecia ou tornava-se ondulado, sabia que era melhor amarrar bem os remos antes de ir dormir."Será que me faltou esse horizonte nesses últimos tempos? Acredito que não. Tenho certeza de qual é meu Horizonte, meu ponto de apoio, meu Companheiro de viagem. E também creio que minhas referências não mudaram, vejo até que bem a possível direção a percorrer. Talvez o que eu precisava, quando não conseguia ver o horizonte e quando algumas ondas se formaram era ter amarrado os remos, ido dormir e descansar. Por um tempo, parar de remar. Pelo menos, até que revisse a linha estável, o horizonte, me informando bem a minha posição. Acho que só assim eu teria clareza da direção e não estaria tão extasiada nos mil e um giros que faziam minhas pernas cambalearem e as tarefas não serem realizadas tão bem.
Agora, no ponto de parada, ainda tenho o horizonte como referência. E sei que poderei remar na direção de momentos extasiantes de novo em breve. A lição é aprender a hora de parar e a hora de girar. Talvez assim eu realize a travessia que me cabe e chegue certeiramente ao destino final.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Afinal, você é homem ou rato?
Ou, melhor, "mulher ou rato?"
Não. Esse não é mais um texto com metáfora. Na história da vez, o rato existe. Ou pelo menos, existiu. E não... Não é mais uma narrativa sobre memórias antigas. O assunto é atual e, mais especificamente, sobre o que vivi nos últimos três dias.
Um rato entrou em casa. E onde ele quis se hospedar? A resposta não podia ser mais irônica: perto da única pessoa que não pode correr. Eu! A saga terminou hoje, e teve alguns momentos bem hilariantes como a minha mãe encurralada no banheiro com o bicho, gritando por quase 1 minuto (desculpa te entregar Mama, mas foi engraçado demais!). "Em quase 30 anos morando nessa casa... Nunca apareceu um rato aqui! Logo agora...", ela dizia pelo menos umas 3 vezes em cada um dos dias da aventura.
Alguns homens, fazendo obras aqui perto nos advertiram que viram o tal do rato entrando aqui em casa pelo portão na segunda-feira. Meus pais revistaram tudo, e encontraram nada. E então, deixamos pra lá, esquecemos. "Eles devem ter se enganado. Viram errado". "Se o rato realmente entrou, já saiu de novo pra rua, fugiu.".
Mas, na madrugada de terça pra quarta, eu acordei com um barulho no lixo que fica no corredor entre a sala e o meu quarto. Ah, é, explicando... Eu moro casa no fundo da casa dos meus pais. Aqui fica meu quarto, com um banheiro e uma sala de estar. Na hora eu pensei: "será que é o rato?". Acendi a luz e vi ele, correu pra longe. Não, minto. Antes eu gritei. Gritei como uma donzela em filme de terror e chamei minha mãe. Pois é. Me senti uma criança patricinha, tão bizarra como as que inacreditavelmente existem-, tipo aquelas mini-misses - me arrepiam até a espinha! Bati a porta (acessível aos meus braços, já que não posso andar) e gritei que nem uma ridícula. Enfim, óbvio, que meu pai olhou tudo, não achou, e não acreditou em mim."Você devia estar sonhando".Rrrrrr...!!!
Minha mãe, nesse ponto de parada em meio a madrugada, de sonho com pesadelo, realidade e fantasia, me veio na imagem de uma fiel escudeira guerreira, se voluntariando a dormir comigo no meu quarto. Já meu pai fez a parte importante de toda saga: a do complicador que gera aflição no público (ele REALMENTE não acreditou em mim!) e depois do herói exterminador, perseguindo e matando o ser com uma barra de alumínio após 24h utilizando as mais variadas armas: mata insetos (pois é, vai entender...), veneno pra rato (depois que ele passou a acreditar vendo a madeira da porta roída), ratoeira com salame e veneno pra cupim (?!).
Mas, na madrugada de terça pra quarta, eu acordei com um barulho no lixo que fica no corredor entre a sala e o meu quarto. Ah, é, explicando... Eu moro casa no fundo da casa dos meus pais. Aqui fica meu quarto, com um banheiro e uma sala de estar. Na hora eu pensei: "será que é o rato?". Acendi a luz e vi ele, correu pra longe. Não, minto. Antes eu gritei. Gritei como uma donzela em filme de terror e chamei minha mãe. Pois é. Me senti uma criança patricinha, tão bizarra como as que inacreditavelmente existem-, tipo aquelas mini-misses - me arrepiam até a espinha! Bati a porta (acessível aos meus braços, já que não posso andar) e gritei que nem uma ridícula. Enfim, óbvio, que meu pai olhou tudo, não achou, e não acreditou em mim."Você devia estar sonhando".Rrrrrr...!!!
Minha mãe, nesse ponto de parada em meio a madrugada, de sonho com pesadelo, realidade e fantasia, me veio na imagem de uma fiel escudeira guerreira, se voluntariando a dormir comigo no meu quarto. Já meu pai fez a parte importante de toda saga: a do complicador que gera aflição no público (ele REALMENTE não acreditou em mim!) e depois do herói exterminador, perseguindo e matando o ser com uma barra de alumínio após 24h utilizando as mais variadas armas: mata insetos (pois é, vai entender...), veneno pra rato (depois que ele passou a acreditar vendo a madeira da porta roída), ratoeira com salame e veneno pra cupim (?!).
Bem, o que eu aprendi nessa loucura e noites mal dormidas além de me sentir com mãos atadas, ou melhor, pés atados? Não sei. Sei que ontem, só conseguia pensar em como me identifiquei com o pobre rato. Uma rata... Sem poder sair. Encurralada. Esse ponto de parada que estou vivendo seria uma redoma? É isso? Porque o sentimento era esse. Agonia e limitação.
Sim... estou usando a história do rato pra desabafar: me desesperei! Muito. "Pés atados"... Não foi como a inconformação do choque assim que o acidente aconteceu, mas pela impotência. Queria sumir. Não estar sentada, aqui, o dia todo... E confesso, nos dias de basquete, a coisa pega mais. Às vezes, fecho o olho, só pra lembrar o barulho da quadra... O mesmo que senti falta por 5 anos. E sei lá quando vou poder ouvir de novo. Pelo menos, ouvir. Jogar, ainda é tudo muito obscuro pra afirmar. E foi bem isso que o médico me disse ontem cedo, no retorno ao hospital. Meu caso é grave, sem garantias. Antecipamos a fisioterapia. Aliás, já marcada para amanhã.
E, da mesma maneira que a saga do rato terminou - e não me refiro à morte do coitado encurralado, mas à experiência, agora já relembrada de maneira cômica - que me rendeu mais uma vivência com meus pais, mais uma história compartilhada e o aprendizado da importância e a benção de ter pessoas ao lado, somado ao alívio de encontrar o que assombrava e a linda consequência de uma bela arrumação de todas as minhas coisas que por tanto tempo posteguei: assim desejo que o sentimento de encurralada se dissipe... Com um bom balanço final.
Sei que hora ou outra vou desanimar, de novo, mas que isso seja cada vez menos intenso. Afinal, ontem me senti como um rato. E, talvez, não só por me encontrar sem saída da atual situação (pelo menos, não como eu queria: voltando no tempo e desfazendo a tola ideia de pular da pedra), mas pela sensação de me sentir fraca onde eu sempre fui forte, e de me sentir covarde quando eu sempre fui corajosa, de olhar pra uma situação que eu sei que posso aguentar, que dá pra encarar, mas estar reagindo pessimamente. Porque essa sensação de não querer enfrentar algo claramente é uma das razões que me trouxe e que me parou aqui. É algo que dá pra persistir, ter garra e força de vontade e superar... Existem tantas histórias para me inspirar, tantos casos piores. Ainda mais com a fé, a certeza que tenho, de que toda essa dificuldade traz persistência, que, por sua vez, traz maturidade e crescimento. Creio que, lá na frente, assim como na saga com o rato, eu vou olhar pra trás e contar toda essa história com um sorriso no rosto... Posso ouvir, nesse ponto de parada, constantemente um sussurro, dizendo:
"Afinal, você é a Alê ou um rato?"
Agora, é prosseguir. Quem nunca teve medo? Quem nunca quis apenas se distrair, esquecer ou fugir de uma situação em que se pôs ou na qual foi colocado, encurralado? Às vezes, não temos esse luxo. Resta-nos, mesmo, só a missão de enfrentar e lidar com os 'ratos' que nos assombram. Dar um passo de cada vez. Amadurecer, como deve ser. Bem, no meu caso, o passo literalmente vai demorar um pouco, mas até lá tem muito chão!
PS.: Hoje comecei a ver um seriado chamado "Under the dome" em que as pessoas ficam encurraladas por um campo, aparentemente magnético. Interessante. Enfim, Freud explica... rs. Mas vale a pena e fica a dica, já que tá no tema! ;)
Agora, é prosseguir. Quem nunca teve medo? Quem nunca quis apenas se distrair, esquecer ou fugir de uma situação em que se pôs ou na qual foi colocado, encurralado? Às vezes, não temos esse luxo. Resta-nos, mesmo, só a missão de enfrentar e lidar com os 'ratos' que nos assombram. Dar um passo de cada vez. Amadurecer, como deve ser. Bem, no meu caso, o passo literalmente vai demorar um pouco, mas até lá tem muito chão!
PS.: Hoje comecei a ver um seriado chamado "Under the dome" em que as pessoas ficam encurraladas por um campo, aparentemente magnético. Interessante. Enfim, Freud explica... rs. Mas vale a pena e fica a dica, já que tá no tema! ;)
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Como eu parei aqui
Talvez seja interessante explicar como eu cheguei aqui, ao ponto de parada. Mas... hm... afinal, como eu parei aqui?
Alguns acham que foi apenas mais uma de minhas peripécias e aventuras, me rendendo um pé quebrado, esperando logo eu de volta, com toda energia! Pode-se ver assim. E pode ser que seja assim... Tomara! Certamente pretendo voltar melhor, aprendendo com o que aconteceu. E pode ser que contar o que foi o acidente esclareça, mas não responde à pergunta... A quebra do osso foi o que me trouxe aqui e, não o "como". Por isso, é preciso entender como eu REALMENTE parei aqui e a história começa um pouco antes...
Quando alguém pára, normalmente é porque está vindo de algum lugar... E eu estava vindo da correria da qual você talvez também faça parte. Vivi experiências inéditas nos últimos anos, o que poderia até nomear de uma vida realmente autêntica, com desprendimento e liberdade... Mas, de alguma maneira, agora, parada, mal sei por onde começar a guardar todos os sonhos realizados que trago na bagagem... Parece longe a última vez que eu fiz uma parada (e me refiro a parar rs).
Ok... Pular de uma pedra nem sempre é uma boa ideia. Mas dessa vez parecia! Pelo menos, estava sendo a vez mais cautelosa... Observei outros pulando, nadei, calculei... E, não, não simplesmente quebrei o pé - afinal, nada comigo pode ser comum: fraturei em diversos lugares o calcâneo, um osso bem complicadinho se você for pesquisar... Fiz cirurgia, coloquei placa e pinos. Comecei com o pé direito o ano! Novinho em folha... Quatro meses sem relar o pé no chão. E sem garantia do quanto vai dar pra recuperar.
Para quem estava sempre fazendo algo incrível, aventureiro, voando alto, indo daqui pra lá, viajando milhas por semana entre outras mil correrias, e, agora, em questão de dias, estar satisfeita se apenas voltar a colocar o pé no chão normalmente, dar um passo sem quaisquer ajudas - pessoas ou muletas - e andar bem alguns metros é uma grande parada. Digo mais, tem sido uma parada brusca... Um choque com muitas perdas de coisas que eu amo, talvez temporárias, mas talvez não. Isso acabou comigo...
Como eu parei aqui? Em choque. Choque brusco. Me desmontou. E você pode estar achando exagero. Realmente, não é uma história tão chocante à primeira vista - se você não sabe que o meu caso de fratura está entre os 20% mais graves que precisam de operação. Claro, não foi um caso como o da Laís Souza ou o do Michael Schumacher (e eu tive que pesquisar pra escrever esse nome direito). Mas por que cada vez mais as notícias precisam ser tão chocantes para valorizarmos as coisas importantes hoje?
Não estou sendo dramática. Sei que podia ser mil vezes mais grave, que fui sortuda... Agora, eu consigo enxergar assim. Mas quando fui parada, estava tremendamente cega. [Foi assim que eu parei aqui...]. Prepotente e independente, perder o controle foi dolorido. E estava assim pela tendência, que todos nós temos, de ser feliz pelo que conquistamos, e nessas conquistas nos firmarmos. Amigo... tenho uma má notícia pra você... Aí não é um solo muito firme... Vai por mim.
Foi bom não precisar ter sido pior para eu voltar a ver. Estou aprendendo. E sei que vai passar. Entretanto, para quem leva uma vida intensa, agitada e corriqueira, é difícil entender que algumas coisas a gente só enxerga parado. E, ao "diminuir o ritmo" que muitos tentam, do que eu mesma estava me dando conta ser necessário, não é suficiente. Eu diria até ser ilusão. Uma boa caminhada, em uma trilha, não é aquela em que você oscila o ritmo. Mas em que você faz boas paradas...
Não desejo o que estou passando para ninguém. Sei que nem todos precisam aprender por experiência. Basta ouvir e ser sábio. Ou em outras palavras, aprendam com o caminho trilhado por outros ao escolher a trilha que vai seguir... Se quiser aprender comigo, aqui vou deixando a minha história. E é meu convidado. Afinal, a parada foi brusca comigo, mas não precisa ser com você.
Pode descansar um pouco. Sinta, às vezes, sem medo, o alívio do peso que carrega. Faça um intervalo. Sacie sua sede. Aprecie as vistas distribuídas ao longo do caminho. Experimente momentos de eternidade. Não diminua o ritmo. Faça mais paradas. Foi o que eu aprendi.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Momentos de eternidade
Meus olhos abriram. Sem alarme. Sem despertador. Sem barulhos na rua. Que horas seriam? "Devo ter dormido demais...", pensei. No celular, 9 da manhã. Sorri comigo mesma... Pela persiana, meus olhos acompanharam um pequeno feixe de luz que ousava entrar por um mal calculado espaço entre a cortina metálica e a janela no quarto aquecido. Para o meu espanto, sua natureza era artificial: lá fora, as luzes dos postes estavam acesas. E a rua, escura. Como se no mesmo descuido que eu, o Sol se esquecera de despertar... Estava de férias, a incontáveis kilômetros de casa, em estação oposta. E novamente retornava a me esparramar no luxo de uma cama macia assim como nas mais algumas horas de sono desprogramado... Lá, era assim. Em pleno fevereiro, ao ar livre até altas horas. Maior parte do tempo escuro. A neve mais limpa, brilhante e fofa reluzia sem ganhar atenção. Meus olhos ficavam em súplica atentos ao céu. O frio era vaidade... E foi assim, dias em que realizei um dos meus maiores sonhos, senão o maior. Ver as luzes dançantes: verdes, vermelhos... A cada dia mais vida, mais intensas... Sabiam que eu as esperava.
Naquele momento, ao deitar novamente minha cabeça no travesseiro e fechar meus olhos, um último pensamento ou sentimento tomava conta de mim: esse sonho parece não ter fim... E foi ali, sem sinal, sem satisfações a dar, a milhas de casa, completamente desconhecida, literalmente no Pólo Norte, eu provei da mais incrível e indescritível sensação de se sentir bem sendo uma completa estranha num lugar que não me pertencia. Paz atemporal...
Posso tentar narrar esses momentos que já experimentei. E será o que mais perto do que em palavras poderei expressar. Não ouso fazer poesia. Poesia é me encontrar lá. Nesse momento que não é tempo, é lugar... Às vezes me pergunto se alguém já se sentiu assim... Bem, eu estou talvez no oposto de qualquer liberdade de ser 'desconhecida' ou zanzar por lugares inéditos. Mas, aqui, no ponto de parada, quando menos esperava revivi algo assim.
Há alguns dias atrás, acordei, despertando de um sonho. Um sonho real, porque eu realizei. Revivendo um momento recente em que eu me encontrava a beira do mar, sentada na areia, de olhos fechados, sentindo a brisa da manhã ainda recente desenhar o formato do meu corpo no chão da areia. Ali mesmo me estendia, me rendia após alguns minutos de caminhada e corrida. Quase ninguém passava, apenas aqueles de passagem. E quem passava devia pensar que louca, apenas de bikini, sem lenço nem documento, em uma praia vazia e silenciosa se largava assim na areia... Mas eu pouco me importava. Sentia-me à areia camuflada. Havia tido minha conversa com o mar logo cedo. Agora era vez de ouvir o que as ondas iriam dialogar. O Sol me aquecia, como algo a me lembrar que cada pedaço do meu corpo estava onde devia estar. Assim como eu. Ali eu pertencia. Mais uma vez, aquele momento se fez lugar...
Eu chamo esses momentos-lugares de momentos de eternidade. Eles me parecem relapsos divinos de paz, gotas que escassamente se acomodam nas curvas do tempo corrido das nossas vidas... Não sei como fazê-los acontecer, nem mesmo, como recentemente, revivê-los. O que concluí é que não importa "onde" estou, nem "quando"..., mas que, em algum lugar da fórmula, talvez próximo ao "como", alguma incógnita constante que se refira ao movimento é estar em um ponto de parada.
Ponto de Parada
- Tudo e com você? Como você está?
- Ah... Na correria! Sabe como é..."
Tá. Cliché começar meu texto assim. Mas quem nunca falou isso? Ou melhor, conte no dedo as raras vezes em que a conversa não foi assim... Mais cliché que esse diálogo, impossível.
Escrevo isso, sem me esquivar. Tem sido assim. E não me refiro à "falta de profundidade nos relacionamentos atuais"... me refiro à correria. Nunca paro. Afinal, "A vida corre!", "O tempo passa", "O tempo urge!", "Não há tempo a perder!". Frases como essas talvez tenham me influenciado sem eu perceber, me levando a me desesperar quando o dia não parece render ou o tempo parece ter sido desperdiçado...Mas, por que corremos tanto?
A ideia de que começamos a morrer assim que nascemos, de que respiramos e a oxigenação nos faz envelhecer a cada segundo, e outras ideias similares, me faz querer aproveitar cada gotinha da ampulheta e sempre fazer tudo valer a pena. Bem, pelo menos, é o que eu pareço estar fazendo mais intensamente ainda nesses últimos 2 anos. Isso, unido ao meu impulso e crença de viver extraordinariamente tudo, me rendeu experiências surreais, verdadeiras histórias pra vida... Mas chego a um ponto de parada, não por escolha própria, mas pelo o que talvez você chame de acidente, eventualidade, destino, azar, sorte, castigo, karma, fato, ocorrido, consequência etc. Eu decidi chamar PONTO DE PARADA, e só sei que sinto que fui trazida para aqui. E tive a sorte de ter sido trazida para o meu porto seguro.
Então, criei esse blog, compartilhando o que estou vivendo, ora na tentativa de aprender decifrando o que está acontecendo ora tentando expor em palavras talvez piadas, experiências, lições e desabafos a partir daqui. Você é meu convidado. Sempre que quiser. É bem vindo a vir e também parar um pouco. Porque, às vezes, o melhor é parar.
"- Oi! Tudo bem?
- Tudo e com você? Como você está?
- Hm... parada."
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