segunda-feira, 30 de março de 2015

Os sábados de minha infância

Sábado é dia de acordar tarde. Hoje lembrei do que era sábado para mim antes. Era dia de ir no bosque, dia de lavar carro e quem sabe, deitar no tapete ouvindo música no som pra descansar. Essas são as memórias que eu tenho dos sábados quando eu ainda era criança. E neles, a figura do meu pai predomina.

Foi num sábado que eu caí e bati meus dentes de leite aos 8 anos. Foi num sábado que quebrei meu braço pela primeira vez aos 6 anos. Foi num sábado que abri minha sobrancelha em alguma manobra esquisita pra secar meu cabelo e me encontrando a testa na pia. Nesses sábados, meu pai me socorreu.

Foi num sábado que fui na feira comer pastel pela primeira vez. Foi num sábado que ganhei cortinas rosa no meu quarto, mudei a mobília de lugar e fiz qualquer arte de papel e retalhos pra dar pra família. E em todos esses momentos, meu pai estava lá.

Mas de todas essas memórias, a mais forte é a de eu no quintal, ajudando a lavar os pneus - porque meu pai, conhecendo a filha, não deixaria esfregar arranhando a lataria... Hoje sei que além de gostar de qualquer atividade que envolvesse água, eu amava a companhia do meu pai. Era nosso momento. Sinto que, de alguma maneira, foram nesses sábados que comecei a conhecê-lo. Conhecer seu jeito de falar, de fazer tudo com excelência, de fazer com todo o coração, mesmo que fosse só a tarefa de limpar uma sujeira. Nesses momentos que eu levei aquelas primeiras broncas agitadas, que eu aprendi a zoar e brincar que nem moleque, jogando água, sabão no olho... Provavelmente, foi nesse quintal que levei meus primeiros tombos e escorregadas. Mas sempre estava tudo bem. Ele estava lá.

Quantas memórias a gente só lembra quando pára... Nessa semana é provável que eu seja liberada para começar a pisar, e minha ansiedade está a mil. Talvez da mesma forma como ansiava por aqueles sábados chegarem. Esses últimos três meses foi como sentir que estava sentada, aos pés das rodas do carro, meio sem saber direito o que estava fazendo, mas com fato a fato aos poucos trazendo sentido e construindo história. O sentimento é que foi 'sábado' aqui. E meu pai estava, como sempre, ele e minha mãe estavam. Mas algo me diz que não só eles: também a felicidade repleta de um belo sábado com ótimas experiências. Um sábado do qual vou certamente sempre lembrar, o qual nunca vou querer findar.

Esse texto só seria mais legal se o aniversário do meu pai fosse sábado, mas é sexta. Porém, talvez isso seja ainda melhor: saber que há sempre mais um sábado por vir sempre me deixa feliz. Sexta, então, me parece um dia perfeito para comemorar todos os sábados que tive, e com a graça de Deus ainda desejo ter com meu pai. 

Se me cabe algum desejo ainda, desejo que as minhas palavras aqui façam outros refletirem e viverem os sábados que estão simples e sutis no dia a dia: no sol que brilha, na companhia, na conversa amiga, na refeição sadia ou na recordação de alguma boa memória esquecida.

Bom sábado e um certamente feliz dia!



terça-feira, 24 de março de 2015

Das horas em que quero fugir

Quando pequena sempre vi aqueles filmes em que a criança foge de casa e vive altas aventuras. Que louco faz um filme para incentivar esse desejo nas crianças?! A verdade é que tinha essa vontade, sem mesmo ter o motivo. Até mesmo quando tudo está bem, fugir se faz tão atrativo. Afinal sempre há mais para ver e coisas por se descobrir. Quem não quer se surpreender?

Às vezes eu quero fugir. E essa sensação não me parece ser peculiarmente só minha. Estou errada? Desde meus primeiros anos de adolescência, a vontade de abstrair se fez cada vez mais tentadora e com várias justificativas. Teve vezes em que a impossibilidade de concretizar este desejo me fez bem artística e criativa, e muitos novos mundos surgiram na minha imaginação quando o abismo se tornou minha incrível habilidade de sobrevoar. Mas e quando a gente tem às mãos a escolha de literalmente fugir? Acredito que essa opção sempre existe, é uma escolha que podemos fazer até mesmo parados.

Por alguns anos me distanciei de tudo e todos que não me agradava - vivia o sonho. A solitude não me incomodava contanto que me encontrasse apenas com meus próprios desafios e problemas. Tão egoísta que sou, você deve estar pensando... Pois sou. Não nego e também não me orgulho ou sinto-me em paz me enxergando assim. Mas tem sido interessante entender, talvez mais claramente, que a minha indiferença não importa nem depende de a fuga poder acontecer concretamente ou não.

Sabe o que é, eu me canso das pessoas, me canso de seus constantes problemas pelas mesmas coisas - que eu considero picuinhas -, me canso de conversar (acredite ou não) sempre que não for do meu interesse o assunto... Quando me vejo em uma discussão tola, quero fugir. Quando a situação não me agrada e o tempo parece cochichar "desperdício, desperdício", quero fugir. Quando aos meus olhos não recebo a beleza que acho que mereço, quero fugir. Quando não ouço o som ou o tom que me agrada, quero fugir. Quando não me recebem como eu queria, quero fugir. Quando não me amam o suficiente, quando não notam que sou diferente, quando me julgam sem me conhecer, quando me mal compreendem...

Mas estando aqui parada, de alguma maneira foram poucas as vezes em que quis fugir. É engraçado, agora, perceber, que toda vez que quero fugir estou pensando em minhas expectativas, como uma bela e formosa rainha que merece ter tudo de melhor do mundo. A melhor roupa, a melhor companhia, a melhor dança, o melhor banquete, os mais belos momentos e consolos. Ter de me calar quando queria falar umas poucas e boas, ter de me portar quando queria falar mais alto, ter de ouvir, quando queria interromper. Sou extremamente tendenciosa a ser meu próprio Sol. Pois bem, aprendi e preciso diariamente reaprender que ao invés de fugir, mais vale ficar em um ponto parada - sem precisar se forçar ou ser forçada - para me enxergar melhor e ser desafiada a ser melhor em amar outros como eu amo a mim mesma.

Se quando criança só me faltava motivos para fugir, devia ver na simplicidade do que se tem e do que se é, satisfação. Acumulo, agora, em minha extraviada e fugitiva forma de ser, mil justificativas para querer ficar. E talvez as primeiras razões sejam crescer, amadurecer e aprender a verdadeiramente amar. Se é para o bem de outros e felicidade geral de encontrar propósito em existir nesse mundo, digam a todos que fico. (óia eu me fazendo de príncipe agora... calma, um dia eu aprendo).





quarta-feira, 11 de março de 2015

Naufrágio

Já vi e ouvi a analogia de nós, seres humanos, sermos barcos, navios ou, que seja, veleiros a navegar pela vida... Mas, pela primeira vez, hoje tive a incerteza de ser bom criar tantas analogias para nos caracterizar. Afinal, todos nós mudamos, não é verdade?! Haja analogias para nos simbolizar durante toda uma vida! Talvez, nossa única certeza é que deveria ser analogada e que, na história do barquinho, seria a de que todos nós um dia vamos naufragar.

Alguns impetuosos barquinhos, novos, afundam antes da hora, por terem coragem demais, e experiência de menos. Outros navios, cargueiros, levando em si tanto conhecimento, viajam toda uma vida, sem uma vida ao mar achar. Ainda, alguns pequenos veleiros, vivem à mercê das ondas, das correntes e dos fortes ventos, usando de suas melhores habilidades para se manterem no rumo. E às vezes, aquela boa e velha canoa é o melhor abrigo no meio do mar. Nem motor, nem vela - apenas remar... Mas, mais uma vez, e me perdi no natural enfoque que damos ao barco. Então, retomo: a única certeza para todos nós é o naufrágio.

Daí surgem as teorias, "o mundo é quadrado", e dar-se-á em um abismo; ou "o mundo é redondo", mas o que acontece depois que você comprovar? O mar e os oceanos sempre encantaram os povos de todas as épocas. Histórias, odes, lendas e aventuras. Homens exploradores, glória, avanço, competição, superação. O mar e seus mistérios... Sua imensidão abriga histórias infinitas. Suas ondas encobrem um mundo divino e indescritível.

O que realmente sabemos sobre a nossa rota? Sobre o que sob os nossos pés está? Assim como a inconsistência do estado físico da água marinha é nosso caminho. Talvez não nos importa tanto que teoria sobre o mar além adotar, mas estar atento a onde e quando aportar, hora certa e lugar. Parar de reparar em adereços do barco e cuidar de reparos verdadeiramente necessários e internos para ir ao destino que nos espera. E o que sabemos sobre esse destino? Você acha que me refiro a um porto? De maneira alguma, nosso destino é o fundo do mar.

Quanto a isso marinheiros, capitães, homens fortes e corajosos estremessem... Temos medo da nossa maior certeza. Esse dia virá. E nos resta entender que "só sei que nada sei". Mas me parece que grande maioria já está a naufragar, perdidos em meio ao mar, sem querer confessar, se localizar olhando para o céu, pras estrelas, pro horizonte... Preocupados apenas com suas próprias velas, mastros, com chegar ao porto que como donos e entendedores dos 7 marés escolheram, sem compreender que para tudo há seu tempo, propósito e lugar, perdem a oportunidade de se entregar ao verdadeiro destino, entender que todo barco é, na verdade, passageiro. E poder, assim, parar de olhar pra dentro e somente pro barquinho, parar de afundar precocemente, redirecionar os olhos, admirar, aproveitar o pôr do Sol, a beira-mar, as mais belas criaturas, a maresia, a doce água doce da chuva...

Quando atracamos, assim como eu aqui, neste porto de parada, podemos ter mais clareza dessa efemeridade. Meu barco encalhou, fui a um lugar raso ou pelo menos, raso demais para mim. Mas esse tempo neste ponto parada, pude rever minha rota, aprender a respeitar o mar, ver outros barcos passando e cada dia é um novo aprendizado. Minha aventura não terminou, ainda que já tenha muitas histórias, estou tendo tempo de reconhecer onde vale a pena navegar, reparar as falhas na embarcação e me situar melhor no oceano. Na hora certa, a maré sobe.

É bom estar sensível aos astros, às ondas, às correntes... Passar por tempestades pode sim nos fazer fortes, mas não nos ajuda necessariamente a ancorar em paz. Essa só se tem quando se pesca no que eu mergulhei: a beleza que me espera quando afundar e aprofundar... Fico só a imaginar, o dia em que eu naufragar. Vão comigo minhas histórias, não hão de outro tesouro em mim achar. Hoje escutei a seguinte frase: "Neste mundo de naufrágios há esperança na incerteza.". Quem entende que não se tem controle da nau, descansa e se liberta. Meu naufrágio há de ser simples. E não iniciei ele ainda, porque escolhi remar para as surpresas que todo dia me esperam em alto-mar.

Vai, repara-te. O naufrágio na hora certa vai chegar. Agora, olha para o incerto mar sem medo de navegar. Há liberdade no incontrolável. Há beleza no imprevisível.



segunda-feira, 9 de março de 2015

Dentre todas as possibilidades

No mergulho, nunca sabemos o que vamos encontrar. Eu, particularmente, não crio expectativas, sei que sempre algo vem e, dentro de várias possibilidades, marca cada descida ao profundo mar - nunca é a mesma história. Certa vez, nadei lado a lado com uma tartaruguinha. Ela surgiu, em toda imensidão que podia estar, em meu percurso. E a surpresa: ela não se afastou, ficou por um ou dois minutos bem pertinho de mim.

Dentre todas as possibilidades, apenas uma acontece. Eu, desde pequena, sempre tive uma mente bem divagadora, cheia de devaneios e imaginação. De alguma forma, eu sempre penso que a realidade pode ficar bem mais interessante com uma pequena colaboração minha. Se eu conseguir trazer ao mundo real minhas ideias mirabolantes, por vezes, verei nos semblantes dos outros a surpresa do encontro deles com meus pensamentos; entretanto, se eu não conseguir trazer ao mundo real, ainda sorrio sozinha imaginando algo surreal acontecendo enquanto alguma situação se desenrola. É nessa segunda opção que eu me transporto para fora da realidade na qual todos vivem e viajo.

Talvez, quando em alguma idade incerta eu entendi que super-poderes não existiam, acabei me apegando a tornar realidade algumas ideias surpreendentes e extraordinárias. Ver as pessoas sempre desesperançosas enquanto eu enxergava as infinitas possibilidades sempre me inspirou a fazer algo por elas, fosse um abajur de bugigangas, um porta retrato de recicláveis ou um simples carta em códigos, cores e desenhos 3D nada comuns. Uma festa surpresa, um jantar temático, um poema lúdico ou uma foto que comprovasse a existência de lindas e possíveis situações que entre a infância e a juventude a gente perde pelo caminho de 'amadurecer' nesse mundo entediante e chato, psicologicamente embutido às nossas mentes.

Mas, então, agora, parada, me encontro quase que vidrada pelo mundo real. Ao invés das possibilidades que ficam na imaginação, me prende a atenção aquela que se torna realidade. Dentre as mil possibilidades do que eu poderia ter feito, lugares que podia ter visitado, pessoas que teria conhecido, eu estou aqui: em casa, Campinas-SP (como tenho escrito diariamente). Dois meses em um mesmo lugar... Essa possibilidade eu não havia previsto, sequer imaginado. Talvez em todos esses anos eu não considerei que a constância e o comum podiam ainda assim serem tão incríveis ou que com pessoas que há tanto tempo conheço ainda assim poderia experimentar conversas e momentos tão espetaculares!

A verdade é que de tão longe que a minha imaginação sempre foi, para mais longe ainda a impossibilidade de andar me levou. E eu estou apaixonada. Sem mil devaneios - apenas uns 200 rs... - olho as coisas e as coisas me olham, vejo-as meio como Alberto Caeiro, sendo belas sem assim dizê-las. Penso, assim, que talvez, de todas coisas incríveis que consigo imaginar e lugares sensacionais pelos quais andei e ainda posso conhecer, algo Inimaginável esteja por trás. Talvez faça mais sentido eu poder trazer um pouco disso para a vida de outros estando num mesmo lugar,constante, e também me permitir que outros me surpreendam por suas imagináveis possibilidades.

Por fim, não nego que não penso mais nas mil possibilidades que virão. E quando eu voltar a andar? O que eu realmente estou aprendendo? Que possibilidades meus pés, então, retornando ao status de equipe, tornarão a caminhar? Sinceramente, eu não sei, só posso imaginar. E sinto que essa é a melhor resposta que eu possa dar. Agora, eu não quero mais escrever, tem uma chuva fina e constante, de brisa leve e gelada, igual a que eu sempre gosto de imaginar, realmente acontecendo em minha janela. Eu preciso parar e admirar. É possível que ela pare, bem como continue. De um jeito ou outro, me surpreenderá.

Ando com saudade de mergulhar, saudade da água do mar. Porém confesso que havia me esquecido o quanto amava chuva, seu barulho e sua textura. De todo jeito, dentro das mil possibilidades de ser quem sou, eu bem sei que posso e estou a mergulhar.