quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O menino do trem

Estar aqui parada tem sido uma experiência e tanto, como todos já sabem. A princípio, o que eu mesma acreditava ser um grande desafio para a menina que está sempre em movimento se revelou apenas mais um episódio da vida - nem maior nem menor que outros. Talvez por envolver dor, acreditamos ser 'tragédia' e desafiador, mas parando pra pensar, observei que diariamente - correndo ou não - todos nós compartilhamos do real desafio dessa vida: pessoas.

Na última lua cheia, eu tinha planejado olhar o céu. Estender minha espreguiçadeira no quintal, talvez ficar lá, coberta por uma colcha delícia, como nesses filmes de drama ou romance. Na minha cabeça já estava tudo planejado, tipo filme americano... Exceto que eu estaria sem o galã, que provavelmente fez um filme de vampiro ou super-herói, ou trama barata de livro transformado em romance ou ainda um daqueles famosos de comédias amorosas água com açúcar, porém estaria muito bem acompanhada pelo meu par de muletas. Acredite ou não, já sorri mais vezes por causa delas do que com outras possíveis companhias...

E só porque eu queria ver o céu... choveu! Óbvio! (me imagine fazendo joinha neste momento com sorriso de quando a tia fala "Nossa, como você cresceu"). Então, coube a mim e a meu querido pé aproveitar o barulhinho da chuva, a brisa que invadia meu quarto e um bom filme. Afinal, não é porque não pude viver a cena de filme que queria que não poderia assistir a um! Então, depois, prestes a pegar no sono, ainda um pouco inconformada com o céu nublado que impossibilitara meu encontro com a lua cheia, relembrei, como recorrentemente tenho feito, da Noruega, daquele céu distante e me surgiu uma 'nova-velha' lembrança, algo que eu havia completamente esquecido que ocorrera e que provavelmente estava descartada na lixeira da minha memória: o menino do trem.

Por um tempo razoável, vivi longe de tudo e todos, e ao contrário do que alguns supõem, foi um tempo incrível. Relativamente fácil, mas isso não era óbvio para mim nem para outros que me enxergavam como um tipo de guerreira. Não ter que lidar com outros temperamentos, gostos, picuinhas, coisas que não me importam, devido a minha mínima convivência com seres humanos, me fez aprender muito e o quão valioso é ter tempo de solitude. Mas quando olho para os momentos verdadeiramente grandes da minha vida, de alguma maneira, eu não estava só.

Nem sempre foram pessoas que eu conhecia ou que me conheciam, mas foram experiências compartilhadas. A própria ida a Noruega foi repleta da presença de pessoas que eu nunca mais vi, mas que estão comigo ainda, inesquecíveis... E quase todas surgiram de maneira improvável. Pessoas com quem conversei por horas debaixo de um céu estrelado, compartilhei a vista das luzes verdes e um frio literalmente congelante, refeições típicas, assentos lado a lado em estádios de algum esporte inusitado, aventuras cuja ignorância não me permitiu ver nenhum risco, lições e encontros em museus de arte inspiradores, e pessoas com quem ainda troco mensagens e emails verdadeiramente profundos e significativos...

Nesses quase dois meses de parada, pensei muito em pessoas. E sempre atrelados a esse pensamento me vêm histórias e episódios. Algumas pessoas que sempre aparecem quando mais preciso, algumas que mesmo impedidas de vir me ver sei que me querem bem. Algumas que nunca aparecem, mas tudo bem. Outras que recentemente pude conhecer mais e se aproximaram, ou que sempre conheci, mas até então não éramos próximas. Bem como pessoas que sumiram, que nunca mais vi. A verdade é que aquelas com quem compartilhamos olhar sincero e coração abertos verdadeiramente e destemidamente, seja apenas uma vez ou uma vida toda, essas são sempre relembradas nessas histórias e episódios destes momentos de conexão real. E o que descobri, agora, é que algumas dessas boas histórias, nosso cérebro arquiva e, até mesmo, nos esquecemos... Como o menino do trem. Pois bem, a curiosidade já deve estar grande, então vamos lá:

Era uma vez, num reino verdadeiramente encantado, mas também verdadeiramente real e existente e, portanto, não mágico, um menino que encontrei num trem. E, infelizmente, essa vez foi realmente apenas uma vez, e esse menino apenas um menino. O passeio mais lindo de trem que existe, tanto por relatos de experts quanto aos meus olhos de leiga e passageira de primeira viagem em ferrovia, cortava o país de gelo, da capital ao litoral e transcorria milhas de paisagens incríveis! Nisso sim, havia "mágica". Desde o início da partida compartilhava o assento ao lado do meu banco com um menino, aparentemente da minha idade, com os traços hereditários de uma família nórdica. Simpático, maduro, mas tão receoso quanto eu para se abrir e puxar assunto com alguém desconhecido. Começamos a contar quem éramos, e por termos histórias e realidades tão distantes, íamos nos surpreendendo, entretidos e, de vez em quando, nos interrompíamos para apontar vistas merecedoras de apreciação silenciosa e devota.

Ele morava em alguma cidade asiática importante, se não me engano Cingapura, e estava voltando para visitar os pais na Noruega. Estudou muitos anos fora do país, ensino médio e algum curso de humanas na faculdade, acho que Direito ou Relações Públicas, mas poderia ser Medicina - é que, sinceramente, desde quando o que a pessoa faz importa quando estamos conhecendo quem ela verdadeiramente é? Compartilhamos um dia único, de conversas interessantes, em palavras e por olhos também. E aos bestas de plantão pensando "own.....", não imaginem a cena como qualquer coisa romântica, por favor. Aliás, devíamos parar de colocar nossa carência nessa necessidade constante de transformar tudo em romance ou sensual. Tendo feito essa ressalva sobre a minha experiência, prossigo: foi um daqueles momentos em que o tempo fica mais infinito e nos sentimos mais humanos. Você já sentiu isso? Eu chamo de 'momentos de eternidade', e vira-e-mexe, me lembro de um desses, e sorrio sozinha...!

Foi o que aconteceu, sem lua cheia a vista, ganhei algo bem melhor, como quem encontra algo que procurava há muito tempo.  São presentes de graça, que dinheiro não compra nem paga. É algo que nos torna mais vivos! Todo mundo devia poder provar disso um dia pelo menos na vida, mas sei que a realidade é outra...

Como eu por tanto tempo havia me esquecido desse trajeto de trem, desse momento, desse menino? Essa história, entre outras histórias, é digna de ser contada em uma lareira com meus filhos, minha família... (mais uma vez: nada romântico - a não ser que saiba o que realmente significa romance). São desses momentos que preciso me lembrar quando situações chatas acontecem... São como um sino que, ao soar, me relembra o que realmente importa, colocando tudo em seu real valor e essência. Lembrar que com a mesma pessoa a quem eu posso dizer coisas más - seja a quem for -, eu posso também compartilhar momentos transformadores, naturais e verdadeiros e que preciso, portanto, propiciar essas chances aproveitando as oportunidades para experimentar isso!

Meu desejo é não esquecer, e buscar esse tipo de recordação, ao invés de problemas desnecessários, superficiais e passageiros. E se eu acumular muitas dessas boas lembranças, que bom! Certamente uma excelente maneira de ocupar meu baú de memórias! Bom mesmo é o que é eterno assim. E mais: muito bem compartilhado e em boa companhia. Porque é assim quando acontece.

Infelizmente, eu desci em uma parada diferente da dele. E não trocamos contato. Mas talvez dividimos uma experiência tão boa quanto longas e fiéis amizades. Desejo isso a todos, que pelo menos uma vez, também se encontrem com um menino no trem. O reino encantado é essa nossa vida, real, diária, cotidiana... Não há nada de mágico ou surreal. Talvez só seja preciso acreditar nas pessoas um pouco mais, olhar para os outros como crianças, sempre dispostas a se surpreenderem. Melhor que ver a lua cheia ou qualquer coisa que eu persigo, é estar aberta à beleza natural dos encontros. Reais encontros. (com ou sem romance... rs)



Legenda: Esse era o trem, assim que eu desci e ele seguiu.





segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Rasura

Nos ensinaram que rasurar é feio. Mas talvez seja a mais bela coragem de corrigir um erro, sem medo de reparar o que é preciso dar um jeito. Talvez se esses riscos fossem traçados mais frequentemente não tinha como tanto erro ficar escrito assim permanentemente... Falo tudo isso, porque sabe quando muda o ano, e vamos escrever a data em um caderno ou cabeçalho e colocamos o ano anterior? Pois é, cometi essa falta recentemente. Esse tipo de erro, ao mesmo tempo em que é gritante - quem esquece do ano em que está?! -, é também comum e corriqueiro no início do ano. Que atire a primeira pedra que nunca teve esse tipo de relapso! kkk... É meio como se algo grande mudasse, mas ainda não nos damos conta o suficiente ou, em outras palavras, sinal de que a adaptação está em processo.

Ao olhar ali, eu rasurando o ano em que estávamos, dizendo ao meu cérebro que de uma vez por todas compreendesse e não se equivocasse mais sobre nossa posição na linha do tempo, me intrigou a razão pela qual isso acontece... Seja uma ideia, um novo número de celular, um novo compromisso na rotina, seja um hábito que deve ser modificado por restrições médicas, ou uma maldita nova regra ortográfica que por sei-lá-que-raios resolveram mudar, esses equívocos acontecem e parece-me pura falta de percepção, desatenção, sempre relacionados à mudança de costumes. Talvez, uma questão de desfoque.

Sinto que, em nossa vida corrida, cada vez mais frequentemente acontecem rasuras gritantes, como essa de errar o ano. Às vezes, olho para trás e ao retomar a algumas coisas, penso: como eu me acostumei com isso? Em que ponto isso virou normal? Pois, em algum momento, parei até de percebê-las. E desorientada, sem saber lidar com o tempo direito, parece que muitos anos passaram... E como Ralph W. Emerson diz "Os anos ensinam muitas coisas que os dias desconhecem."

Hoje, nesse ponto de parada, tive o privilégio de perceber algumas rasuras por fazer. Costumes ora inúteis ora verdadeiramente não saudáveis, hábitos ruins, que merecem um bom tumulto de riscos à caneta. E me questiono: por que ainda erro o ano? Por que ainda me importo com algumas opiniões? Por que me convenço de que algumas lutas não são minhas e deixo atitudes inadmissíveis, que afetam outros, passarem sem eu me manifestar?

Sabe aquela relatividade, de que quando esperamos, o tempo não passa, e quando estamos aproveitando algo muito bom, ele voa? Tem sido assim... Alternando entre minhas próprias sensações, enquanto o tempo é o mesmo. Só reparo no que me afeta, no que importa ao meu redor enquanto ignoro e não me sensibilizo por fatos verdadeiramente relevantes.

Um exemplo que talvez comunique melhor a vocês: viagens. Hum... agora ficou interessante, não?! Pois bem, lembrei esses dias de um dos meus maiores questionamentos quando estava prestes a ir para a Noruega realizar o sonho de ver a Aurora Boreal. Eu me perguntava o quão egoísta eu estava sendo, indo atrás de algo só para mim, enquanto podia dedicar meu dinheiro e tempo para ajudar pessoas que mal conseguem sonhar... Voltei da realização do meu sonho com a 'linda' ideia e um real desprendimento - que ainda reside em mim - de largar tudo e viajar o mundo. Aliás, ideiazinha que está bem na moda...Como heróis, pessoas tem se jogado por aí, como aventureiros em busca de lugares, pessoas, fotos, culturas e distrações realizando o sonho de não ter que lidar com as preocupações da vida enquanto a sociedade local a que pertence rui e sofre diversas outras omissões.

Não, eu não sou tão engajada quanto estou soando agora, mas a verdade é que temos culpa em tudo isso. Algo grande está sendo escrito, e precisava de rasura, mas ao invés disso, tudo nos impulsiona a viver pensando em colorir nossa própria aquarela. Veja bem, não acho errado sair de férias, nem realizar sonhos, nem conhecer lugares... Tampouco é minha intenção constranger ou apontar dedos, porque essa reflexão é sobre a MINHA vida e o que vejo vivendo no mundo. Até acho que existem muitas coisas boas que por si só não são erradas, mas a questão aqui é sermos pessoas engajadas em fielmente buscar nosso bem e o que nos parece bom - como se vivêssemos num filme da Disney - do que o bem comum e uma boa vida  a todos. Isso fica de tarefa só para as autoridades que elegemos e criticamos.

Cheguei à conclusão de que tenho que constantemente me lembrar disso, assim como de que não posso pisar no chão com meu pé quebrado - ou melhor, meu novo pé de aço. Principalmente nos momentos em que me acostumo, e em que não há dor, é que essas faltas acontecem - afinal, não me afeta!... Preciso acordar para rasurar minha conformidade com coisas que não chegam à minha vida diretamente, mas afetam meu semelhante, minha sociedade, nosso mundo. Talvez uma luta contra o automático egoísmo imputado em mim... Talvez, perdi o brilho das mais simples coisas da vida por estar distraída. Cometo erros por não estar presente no presente, com olhos e coração abertos. Falta uma sutil sensibilidade para evitar tão gritantes rasuras...

Percebo hoje que é melhor eu rasurar algumas das viagens dos sonhos, para simplesmente dar a chance de outros sonharem também. Mas antes de qualquer rasura grande assim, quero verdadeiramente rasurar a indiferença com que acordo diariamente, a automaticidade da rotina, a insensibilidade aos olhos que de mim se aproximarem ao longo do dia... Porque, no fundo, hoje eu sei que se eu pôr o pé no chão, tudo desmonta, principalmente eu e, sinceramente, talvez o que mais precisamos seja de pessoas desmontadas que saibam rasurar. Em alguns momentos, será necessário eu aprender a me rasurar para dar espaço à escrita do outro.

Meu pé é uma grande rasura. Ele nunca vai ser o mesmo. Não há corretivo ou branquinho ou errorex - como desejar chamar - para depois desenhar em cima desse erro um pé novinho como o que nasceu comigo. Mas eu definitivamente não pretendo rasurar o acidente com meu pé. Talvez tenha sido o ponta pé para os melhores despertamentos da minha vida... Afinal, errando se aprende.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Que título esquisito, pequeno demais, né? Mas é sobre o que eu preciso falar. E por mais que, agora, no ponto de parada, já se ouça a Alê cantarolando baixinho vez ou outra - e eu me pego de surpresa e sorrio - não me refiro à nota musical, mas ao sentimento de pena mesmo... (não vou fazer ressalva pra explicar "pena" também, acho que já deu pra entender rs). Ultimamente, tenho recebido visitas, recados de amigos distantes, mensagens mostrando preocupação e cuidado comigo. Muitos deles dizem coisas como: "Vai dar tudo certo", "Estou orando por você", "O importante é levar tudo isso da melhor maneira possível", "Fico feliz de te ver animada", "Você vai tirar isso de letra!", "Vai passar!", "Logo logo, tudo volta ao normal" etc. E constantemente minha mãe repara também e me diz: "Olha só, quantas pessoas te querem bem!".

Eu entendo a ótima intenção de todos, e eu mesma sei que ninguém deseja quebrar tão exoticamente o pé como eu e, portanto, encontrar-se na minha situação. Acontece que a própria fala da minha mãe bem como as outras me faz parecer, de alguma maneira, destoante do que eu estou experimentando na realidade. Você pode estranhar, mas meu sentimento tá mais próximo de leveza do que de dificuldade. E cheguei a um ponto em que só consigo ver esse episódio do pé como algo verdadeiramente bom.

Então, quando alguém chega e diz que vai passar, fico pensando que a pessoa não tem noção do quão bom tudo isso tá sendo para mim... Esse tempo, essa parada, a aproximação com meus pais, reaprender a não fazer nada, a viver simples, a diminuição do ritmo, da carga, da cobrança... Parece que é tempo de ser adolescente com uma cabeça de adulto e, quer saber, é bom demais viver e aprender. Bom demais acordar, olhar meu pé e sorrir, sonhar...

Agora que as fases da inconformação e da ansiedade passaram, vivo um novo momento que só experimenta quem pára um pouco para observar: a percepção do que é verdadeiro. Tem sido tão positivo que até me esqueci de escrever, e eu sempre escrevo quando algo me incomoda. Hoje tive que me convencer a dedicar um tempo aqui para explicar - o que, também, de certa forma me incomoda: as pessoas não conseguirem ver que, na verdade, elas estão passando por dificuldades bem maiores que a minha e não estão parando... Então, pela primeira vez, tenho dois pedidos com esse post. Primeiro, peço que tente desconstruir a ideia de que limitação é algo negativo, e perceba que, na verdade, por natureza, somos todos limitados. Segundo, diminua o seu ritmo, pra que você corre? Tem muitas frases bonitas que publicamos no Facebook, no status, nas mídias, mas a vida realmente escorre enquanto você corre pra fazer o que é urgente, mas não necessariamente importante. E quem fala é a menina que nunca pára, ou pelo menos, não parava; a menina que não sabia simplesmente "não fazer nada" por sequer um minuto.

Outra abordagem que eu queria fazer, é que, pensando aqui, seria bem legal se a gente pudesse também ver o coração da pessoa, o caráter, a índole da mesma forma como enxergamos as limitações físicas. Porque o olhar das pessoas é muito de "dó", de "pena", e eu senti um pouco disso esses dias, estando assim. E isso é absurdo!!! Porque ninguém escolhe ficar assim... Por isso, o que seria incrível mesmo talvez fosse olhar para a desonestidade de alguém e ele se constranger... Obvio que é um pensamento totalmente de justiça absurdo, nunca que daria certo e Deus fez como é melhor mesmo para nós. E isso não acabaria com os olhares de dó para mim... rs

Enfim, saiba que eu estou bem, e entendo as preocupações e desejos para que eu saia dessa. Só queria que você soubesse que "essa" em que eu estou, não é "uma bad" ou "pior", ou qualquer dificuldade ou coisa ruim. Eu não creio nisso, e o sentimento é de paz e felicidade em quase todo tempo. (e, não, não é denegação da situação: é um baita de um aprendizado privilegiado). Afinal, você já pensou que não utilizamos todos nossos membros, músculos e ossos o tempo todo? Há tempo para tudo -  e para cada parte. Eu continuo a remar, entendi que nunca precisei do pé para isso...

Da menina que está aprendendo a se movimentar, um passo por vez, feliz por notar o essencial: tem tudo o que precisa - e mais!




segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Péadinhas

Por esses dias, minha mãe disse: "Fica aí, hein!" - como se eu pudesse sair andando... Até as muletas estavam fora do meu alcance! Essa e outras frases têm aparecido muito, mesmo que sem querer, tais como: "Não vai sair correndo!", "Não vá a lugar algum!", "E, aí, tudo de pé?" etc. Dizem que, às vezes, a melhor forma de se encarar uma situação difícil é com bom humor. Bem, a minha situação definitivamente não é fácil. E, se for assim, piadinhas não farão falta em todo tempo que estiver parada! Tenho certeza!

"E, aí?! Como você anda?" - De muletas?!?!... "Como vão as coisas?" - Caminhando?!?! Rs "Como foi seu começo de ano?" - Comecei com o pé direito... "Por onde você anda?", "Mas, e aí, melhorou?" - Um passo por vez! (só que não né...).

Pois é, piadas não faltam. A cada dia, surge uma nova. Enfim, dancei! Comecei o ano com o pé esquerdo. Ainda não pisei com o pé direito em 2015. Senti o break, pronta pra pular carnaval e só dando mancada (quem me dera... nem isso!). Bem, pode deixar, não sairei do lugar e aceitarei ser chamada de "ponto e vírgula" por um bom tempo quando voltar a andar...

Porém, a mais nova 'péada' é outra... Um dia desses, ao me perguntarem como eu estava, respondi "Tudo sob controle!". Essa resposta ficou ecoando na minha mente... "Sob controle... sob controle... sob controle...". Sob controle? Tipo, tudo certo? Me deu vontade de rir! - Certeza de quê? Controle de quem? - Fiquem tranquilos, está tudo bem. Não estou descontrolada, nem cheia de dúvidas. Mas acredito que esteja um pouco complicado falar de controle quando a sensação é de que algo parece me escapar das rédeas... Algo me foge quando pisco meus olhos. Essa é a sensação que percebo aqui, parada. Só que, de alguma maneira, ela não chegou agora. Parece que ela sempre existiu e esteve perto de mim...

Quando faço um arremesso, por mais bem treinada e concentrada que esteja, entre os milésimos de piscar de olhos, algo parece não me pertencer. É como se eu não tivesse o domínio total da situação ou sequer garantia de como as coisas vão acontecer depois que eu agir. Sabe quando a gente joga dados e sente aquele 'acaso' de não estar mais em nossas mãos no micromomento que existe antes de saber o resultado? Ou, ainda, quando movemos uma peça no tabuleiro sem saber o que aquela jogada vai desencadear?! É mais ou menos isso.

Acontece que eu não acredito em sorte ou acaso. Porque, esse suspiro prévio que damos soa como uma oração, e o que decorre não é um 'tanto faz'. Pelo contrário, parece estar num script. E, talvez, por isso, essa sensação, de que milésimos me suspendem no ar, me intriga. E acontece e sinto em vários momentos. Parece loucura? A gente fechar os olhos, e de alguma maneira, coração saber "não depende 100% de mim"? Existe algo que foge do meu controle, e eu não consigo ver! Como se o meu quadro fizesse parte de uma exposição em que eu não sou o artista. Eu ajudo nas probabilidades das coisas, até com certa autonomia, mas tem um limite invisível, que após ultrapassado, nada eu posso fazer ou mudar, e é quando me foge o controle...

Em questão de segundos, antes de pular na água, não apenas dessa vez que me machuquei, mas em quase todas, da ponte, em mergulhos, na caverna, na praia, no mar e no rio, eu sempre senti isso. Sempre que me arrisco, ou que há riscos ou chances. Eu não tenho o controle do que vai acontecer. Apenas da responsabilidade de me colocar onde me coloquei e do gesto e atitude que decidi tomar. Em toda viagem que planejei, eu nunca sei o que vai transcorrer, quem vou encontrar, que histórias ouvirei, que perrengues passarei, que mudanças aceitarei, por mais planejados que estejam os dias e os lugares!

Outro exemplo: nunca sei o que vai acontecer ao ir dormir. Você já pensou isso? Mas mesmo assim dormimos, sem saber se vamos acordar. Parece que assim, se entregando, a minha história vai fazendo parte de uma maior, de algo maior - que eu também não sei definir, mas que é como o sonho que a gente tem e não se lembra na manhã seguinte. Não temos controle do que sonharemos, mas decidimos adormecer. E as coisas, dessa maneira, parecem ocupar o seu devido lugar, e eu a ser quem devo ser, naturalmente. Vêm a mim as reações de minhas ações, que me dão a sensação de estar sob controle, mas que não é todo meu.

Então, o que fazer com essa informação? "Sob controle". Acho que só mesmo repetir o que eu fiz: sorrir. Entre o piscar dos olhos, não sei o que acontecerá. Essa sensação, me veio aqui, parada, novamente, mas, agora, em forma de piada. Não por ser cômica, mas por ser uma estranha segurança, de que, ainda que eu seja responsável pelos meus atos, a minha história não depende só de mim. E a péadinha é "ainda bem", pois, se dependesse, seria uma história um tanto 'debilitada', 'manca' e 'sem pé' nem cabeça, a partir daqui, desse ponto de parada. Assim, como o dia vem após a noite, a luz após a escuridão, me acompanha uma única certeza: a de que não vai ser uma mera consequência de meus atos e escolhas. Conta com algo maior que eu. E está tudo certo. Tudo sob controle.