No mergulho, nunca sabemos o que vamos encontrar. Eu, particularmente, não crio expectativas, sei que sempre algo vem e, dentro de várias possibilidades, marca cada descida ao profundo mar - nunca é a mesma história. Certa vez, nadei lado a lado com uma tartaruguinha. Ela surgiu, em toda imensidão que podia estar, em meu percurso. E a surpresa: ela não se afastou, ficou por um ou dois minutos bem pertinho de mim.
Dentre todas as possibilidades, apenas uma acontece. Eu, desde pequena, sempre tive uma mente bem divagadora, cheia de devaneios e imaginação. De alguma forma, eu sempre penso que a realidade pode ficar bem mais interessante com uma pequena colaboração minha. Se eu conseguir trazer ao mundo real minhas ideias mirabolantes, por vezes, verei nos semblantes dos outros a surpresa do encontro deles com meus pensamentos; entretanto, se eu não conseguir trazer ao mundo real, ainda sorrio sozinha imaginando algo surreal acontecendo enquanto alguma situação se desenrola. É nessa segunda opção que eu me transporto para fora da realidade na qual todos vivem e viajo.
Talvez, quando em alguma idade incerta eu entendi que super-poderes não existiam, acabei me apegando a tornar realidade algumas ideias surpreendentes e extraordinárias. Ver as pessoas sempre desesperançosas enquanto eu enxergava as infinitas possibilidades sempre me inspirou a fazer algo por elas, fosse um abajur de bugigangas, um porta retrato de recicláveis ou um simples carta em códigos, cores e desenhos 3D nada comuns. Uma festa surpresa, um jantar temático, um poema lúdico ou uma foto que comprovasse a existência de lindas e possíveis situações que entre a infância e a juventude a gente perde pelo caminho de 'amadurecer' nesse mundo entediante e chato, psicologicamente embutido às nossas mentes.
Mas, então, agora, parada, me encontro quase que vidrada pelo mundo real. Ao invés das possibilidades que ficam na imaginação, me prende a atenção aquela que se torna realidade. Dentre as mil possibilidades do que eu poderia ter feito, lugares que podia ter visitado, pessoas que teria conhecido, eu estou aqui: em casa, Campinas-SP (como tenho escrito diariamente). Dois meses em um mesmo lugar... Essa possibilidade eu não havia previsto, sequer imaginado. Talvez em todos esses anos eu não considerei que a constância e o comum podiam ainda assim serem tão incríveis ou que com pessoas que há tanto tempo conheço ainda assim poderia experimentar conversas e momentos tão espetaculares!
A verdade é que de tão longe que a minha imaginação sempre foi, para mais longe ainda a impossibilidade de andar me levou. E eu estou apaixonada. Sem mil devaneios - apenas uns 200 rs... - olho as coisas e as coisas me olham, vejo-as meio como Alberto Caeiro, sendo belas sem assim dizê-las. Penso, assim, que talvez, de todas coisas incríveis que consigo imaginar e lugares sensacionais pelos quais andei e ainda posso conhecer, algo Inimaginável esteja por trás. Talvez faça mais sentido eu poder trazer um pouco disso para a vida de outros estando num mesmo lugar,constante, e também me permitir que outros me surpreendam por suas imagináveis possibilidades.
Por fim, não nego que não penso mais nas mil possibilidades que virão. E quando eu voltar a andar? O que eu realmente estou aprendendo? Que possibilidades meus pés, então, retornando ao status de equipe, tornarão a caminhar? Sinceramente, eu não sei, só posso imaginar. E sinto que essa é a melhor resposta que eu possa dar. Agora, eu não quero mais escrever, tem uma chuva fina e constante, de brisa leve e gelada, igual a que eu sempre gosto de imaginar, realmente acontecendo em minha janela. Eu preciso parar e admirar. É possível que ela pare, bem como continue. De um jeito ou outro, me surpreenderá.
Ando com saudade de mergulhar, saudade da água do mar. Porém confesso que havia me esquecido o quanto amava chuva, seu barulho e sua textura. De todo jeito, dentro das mil possibilidades de ser quem sou, eu bem sei que posso e estou a mergulhar.

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