Já vi e ouvi a analogia de nós, seres humanos, sermos barcos, navios ou, que seja, veleiros a navegar pela vida... Mas, pela primeira vez, hoje tive a incerteza de ser bom criar tantas analogias para nos caracterizar. Afinal, todos nós mudamos, não é verdade?! Haja analogias para nos simbolizar durante toda uma vida! Talvez, nossa única certeza é que deveria ser analogada e que, na história do barquinho, seria a de que todos nós um dia vamos naufragar.
Alguns impetuosos barquinhos, novos, afundam antes da hora, por terem coragem demais, e experiência de menos. Outros navios, cargueiros, levando em si tanto conhecimento, viajam toda uma vida, sem uma vida ao mar achar. Ainda, alguns pequenos veleiros, vivem à mercê das ondas, das correntes e dos fortes ventos, usando de suas melhores habilidades para se manterem no rumo. E às vezes, aquela boa e velha canoa é o melhor abrigo no meio do mar. Nem motor, nem vela - apenas remar... Mas, mais uma vez, e me perdi no natural enfoque que damos ao barco. Então, retomo: a única certeza para todos nós é o naufrágio.
Daí surgem as teorias, "o mundo é quadrado", e dar-se-á em um abismo; ou "o mundo é redondo", mas o que acontece depois que você comprovar? O mar e os oceanos sempre encantaram os povos de todas as épocas. Histórias, odes, lendas e aventuras. Homens exploradores, glória, avanço, competição, superação. O mar e seus mistérios... Sua imensidão abriga histórias infinitas. Suas ondas encobrem um mundo divino e indescritível.
O que realmente sabemos sobre a nossa rota? Sobre o que sob os nossos pés está? Assim como a inconsistência do estado físico da água marinha é nosso caminho. Talvez não nos importa tanto que teoria sobre o mar além adotar, mas estar atento a onde e quando aportar, hora certa e lugar. Parar de reparar em adereços do barco e cuidar de reparos verdadeiramente necessários e internos para ir ao destino que nos espera. E o que sabemos sobre esse destino? Você acha que me refiro a um porto? De maneira alguma, nosso destino é o fundo do mar.
Quanto a isso marinheiros, capitães, homens fortes e corajosos estremessem... Temos medo da nossa maior certeza. Esse dia virá. E nos resta entender que "só sei que nada sei". Mas me parece que grande maioria já está a naufragar, perdidos em meio ao mar, sem querer confessar, se localizar olhando para o céu, pras estrelas, pro horizonte... Preocupados apenas com suas próprias velas, mastros, com chegar ao porto que como donos e entendedores dos 7 marés escolheram, sem compreender que para tudo há seu tempo, propósito e lugar, perdem a oportunidade de se entregar ao verdadeiro destino, entender que todo barco é, na verdade, passageiro. E poder, assim, parar de olhar pra dentro e somente pro barquinho, parar de afundar precocemente, redirecionar os olhos, admirar, aproveitar o pôr do Sol, a beira-mar, as mais belas criaturas, a maresia, a doce água doce da chuva...
Quando atracamos, assim como eu aqui, neste porto de parada, podemos ter mais clareza dessa efemeridade. Meu barco encalhou, fui a um lugar raso ou pelo menos, raso demais para mim. Mas esse tempo neste ponto parada, pude rever minha rota, aprender a respeitar o mar, ver outros barcos passando e cada dia é um novo aprendizado. Minha aventura não terminou, ainda que já tenha muitas histórias, estou tendo tempo de reconhecer onde vale a pena navegar, reparar as falhas na embarcação e me situar melhor no oceano. Na hora certa, a maré sobe.
É bom estar sensível aos astros, às ondas, às correntes... Passar por tempestades pode sim nos fazer fortes, mas não nos ajuda necessariamente a ancorar em paz. Essa só se tem quando se pesca no que eu mergulhei: a beleza que me espera quando afundar e aprofundar... Fico só a imaginar, o dia em que eu naufragar. Vão comigo minhas histórias, não hão de outro tesouro em mim achar. Hoje escutei a seguinte frase: "Neste mundo de naufrágios há esperança na incerteza.". Quem entende que não se tem controle da nau, descansa e se liberta. Meu naufrágio há de ser simples. E não iniciei ele ainda, porque escolhi remar para as surpresas que todo dia me esperam em alto-mar.
Vai, repara-te. O naufrágio na hora certa vai chegar. Agora, olha para o incerto mar sem medo de navegar. Há liberdade no incontrolável. Há beleza no imprevisível.

Nenhum comentário:
Postar um comentário