Estar aqui parada tem sido uma experiência e tanto, como todos já sabem. A princípio, o que eu mesma acreditava ser um grande desafio para a menina que está sempre em movimento se revelou apenas mais um episódio da vida - nem maior nem menor que outros. Talvez por envolver dor, acreditamos ser 'tragédia' e desafiador, mas parando pra pensar, observei que diariamente - correndo ou não - todos nós compartilhamos do real desafio dessa vida: pessoas.
Na última lua cheia, eu tinha planejado olhar o céu. Estender minha espreguiçadeira no quintal, talvez ficar lá, coberta por uma colcha delícia, como nesses filmes de drama ou romance. Na minha cabeça já estava tudo planejado, tipo filme americano... Exceto que eu estaria sem o galã, que provavelmente fez um filme de vampiro ou super-herói, ou trama barata de livro transformado em romance ou ainda um daqueles famosos de comédias amorosas água com açúcar, porém estaria muito bem acompanhada pelo meu par de muletas. Acredite ou não, já sorri mais vezes por causa delas do que com outras possíveis companhias...
E só porque eu queria ver o céu... choveu! Óbvio! (me imagine fazendo joinha neste momento com sorriso de quando a tia fala "Nossa, como você cresceu"). Então, coube a mim e a meu querido pé aproveitar o barulhinho da chuva, a brisa que invadia meu quarto e um bom filme. Afinal, não é porque não pude viver a cena de filme que queria que não poderia assistir a um! Então, depois, prestes a pegar no sono, ainda um pouco inconformada com o céu nublado que impossibilitara meu encontro com a lua cheia, relembrei, como recorrentemente tenho feito, da Noruega, daquele céu distante e me surgiu uma 'nova-velha' lembrança, algo que eu havia completamente esquecido que ocorrera e que provavelmente estava descartada na lixeira da minha memória: o menino do trem.
Por um tempo razoável, vivi longe de tudo e todos, e ao contrário do que alguns supõem, foi um tempo incrível. Relativamente fácil, mas isso não era óbvio para mim nem para outros que me enxergavam como um tipo de guerreira. Não ter que lidar com outros temperamentos, gostos, picuinhas, coisas que não me importam, devido a minha mínima convivência com seres humanos, me fez aprender muito e o quão valioso é ter tempo de solitude. Mas quando olho para os momentos verdadeiramente grandes da minha vida, de alguma maneira, eu não estava só.
Nem sempre foram pessoas que eu conhecia ou que me conheciam, mas foram experiências compartilhadas. A própria ida a Noruega foi repleta da presença de pessoas que eu nunca mais vi, mas que estão comigo ainda, inesquecíveis... E quase todas surgiram de maneira improvável. Pessoas com quem conversei por horas debaixo de um céu estrelado, compartilhei a vista das luzes verdes e um frio literalmente congelante, refeições típicas, assentos lado a lado em estádios de algum esporte inusitado, aventuras cuja ignorância não me permitiu ver nenhum risco, lições e encontros em museus de arte inspiradores, e pessoas com quem ainda troco mensagens e emails verdadeiramente profundos e significativos...
Nesses quase dois meses de parada, pensei muito em pessoas. E sempre atrelados a esse pensamento me vêm histórias e episódios. Algumas pessoas que sempre aparecem quando mais preciso, algumas que mesmo impedidas de vir me ver sei que me querem bem. Algumas que nunca aparecem, mas tudo bem. Outras que recentemente pude conhecer mais e se aproximaram, ou que sempre conheci, mas até então não éramos próximas. Bem como pessoas que sumiram, que nunca mais vi. A verdade é que aquelas com quem compartilhamos olhar sincero e coração abertos verdadeiramente e destemidamente, seja apenas uma vez ou uma vida toda, essas são sempre relembradas nessas histórias e episódios destes momentos de conexão real. E o que descobri, agora, é que algumas dessas boas histórias, nosso cérebro arquiva e, até mesmo, nos esquecemos... Como o menino do trem. Pois bem, a curiosidade já deve estar grande, então vamos lá:
Era uma vez, num reino verdadeiramente encantado, mas também verdadeiramente real e existente e, portanto, não mágico, um menino que encontrei num trem. E, infelizmente, essa vez foi realmente apenas uma vez, e esse menino apenas um menino. O passeio mais lindo de trem que existe, tanto por relatos de experts quanto aos meus olhos de leiga e passageira de primeira viagem em ferrovia, cortava o país de gelo, da capital ao litoral e transcorria milhas de paisagens incríveis! Nisso sim, havia "mágica". Desde o início da partida compartilhava o assento ao lado do meu banco com um menino, aparentemente da minha idade, com os traços hereditários de uma família nórdica. Simpático, maduro, mas tão receoso quanto eu para se abrir e puxar assunto com alguém desconhecido. Começamos a contar quem éramos, e por termos histórias e realidades tão distantes, íamos nos surpreendendo, entretidos e, de vez em quando, nos interrompíamos para apontar vistas merecedoras de apreciação silenciosa e devota.
Ele morava em alguma cidade asiática importante, se não me engano Cingapura, e estava voltando para visitar os pais na Noruega. Estudou muitos anos fora do país, ensino médio e algum curso de humanas na faculdade, acho que Direito ou Relações Públicas, mas poderia ser Medicina - é que, sinceramente, desde quando o que a pessoa faz importa quando estamos conhecendo quem ela verdadeiramente é? Compartilhamos um dia único, de conversas interessantes, em palavras e por olhos também. E aos bestas de plantão pensando "own.....", não imaginem a cena como qualquer coisa romântica, por favor. Aliás, devíamos parar de colocar nossa carência nessa necessidade constante de transformar tudo em romance ou sensual. Tendo feito essa ressalva sobre a minha experiência, prossigo: foi um daqueles momentos em que o tempo fica mais infinito e nos sentimos mais humanos. Você já sentiu isso? Eu chamo de 'momentos de eternidade', e vira-e-mexe, me lembro de um desses, e sorrio sozinha...!
Foi o que aconteceu, sem lua cheia a vista, ganhei algo bem melhor, como quem encontra algo que procurava há muito tempo. São presentes de graça, que dinheiro não compra nem paga. É algo que nos torna mais vivos! Todo mundo devia poder provar disso um dia pelo menos na vida, mas sei que a realidade é outra...
Como eu por tanto tempo havia me esquecido desse trajeto de trem, desse momento, desse menino? Essa história, entre outras histórias, é digna de ser contada em uma lareira com meus filhos, minha família... (mais uma vez: nada romântico - a não ser que saiba o que realmente significa romance). São desses momentos que preciso me lembrar quando situações chatas acontecem... São como um sino que, ao soar, me relembra o que realmente importa, colocando tudo em seu real valor e essência. Lembrar que com a mesma pessoa a quem eu posso dizer coisas más - seja a quem for -, eu posso também compartilhar momentos transformadores, naturais e verdadeiros e que preciso, portanto, propiciar essas chances aproveitando as oportunidades para experimentar isso!
Meu desejo é não esquecer, e buscar esse tipo de recordação, ao invés de problemas desnecessários, superficiais e passageiros. E se eu acumular muitas dessas boas lembranças, que bom! Certamente uma excelente maneira de ocupar meu baú de memórias! Bom mesmo é o que é eterno assim. E mais: muito bem compartilhado e em boa companhia. Porque é assim quando acontece.
Infelizmente, eu desci em uma parada diferente da dele. E não trocamos contato. Mas talvez dividimos uma experiência tão boa quanto longas e fiéis amizades. Desejo isso a todos, que pelo menos uma vez, também se encontrem com um menino no trem. O reino encantado é essa nossa vida, real, diária, cotidiana... Não há nada de mágico ou surreal. Talvez só seja preciso acreditar nas pessoas um pouco mais, olhar para os outros como crianças, sempre dispostas a se surpreenderem. Melhor que ver a lua cheia ou qualquer coisa que eu persigo, é estar aberta à beleza natural dos encontros. Reais encontros. (com ou sem romance... rs)
Legenda: Esse era o trem, assim que eu desci e ele seguiu.


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