segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Péadinhas

Por esses dias, minha mãe disse: "Fica aí, hein!" - como se eu pudesse sair andando... Até as muletas estavam fora do meu alcance! Essa e outras frases têm aparecido muito, mesmo que sem querer, tais como: "Não vai sair correndo!", "Não vá a lugar algum!", "E, aí, tudo de pé?" etc. Dizem que, às vezes, a melhor forma de se encarar uma situação difícil é com bom humor. Bem, a minha situação definitivamente não é fácil. E, se for assim, piadinhas não farão falta em todo tempo que estiver parada! Tenho certeza!

"E, aí?! Como você anda?" - De muletas?!?!... "Como vão as coisas?" - Caminhando?!?! Rs "Como foi seu começo de ano?" - Comecei com o pé direito... "Por onde você anda?", "Mas, e aí, melhorou?" - Um passo por vez! (só que não né...).

Pois é, piadas não faltam. A cada dia, surge uma nova. Enfim, dancei! Comecei o ano com o pé esquerdo. Ainda não pisei com o pé direito em 2015. Senti o break, pronta pra pular carnaval e só dando mancada (quem me dera... nem isso!). Bem, pode deixar, não sairei do lugar e aceitarei ser chamada de "ponto e vírgula" por um bom tempo quando voltar a andar...

Porém, a mais nova 'péada' é outra... Um dia desses, ao me perguntarem como eu estava, respondi "Tudo sob controle!". Essa resposta ficou ecoando na minha mente... "Sob controle... sob controle... sob controle...". Sob controle? Tipo, tudo certo? Me deu vontade de rir! - Certeza de quê? Controle de quem? - Fiquem tranquilos, está tudo bem. Não estou descontrolada, nem cheia de dúvidas. Mas acredito que esteja um pouco complicado falar de controle quando a sensação é de que algo parece me escapar das rédeas... Algo me foge quando pisco meus olhos. Essa é a sensação que percebo aqui, parada. Só que, de alguma maneira, ela não chegou agora. Parece que ela sempre existiu e esteve perto de mim...

Quando faço um arremesso, por mais bem treinada e concentrada que esteja, entre os milésimos de piscar de olhos, algo parece não me pertencer. É como se eu não tivesse o domínio total da situação ou sequer garantia de como as coisas vão acontecer depois que eu agir. Sabe quando a gente joga dados e sente aquele 'acaso' de não estar mais em nossas mãos no micromomento que existe antes de saber o resultado? Ou, ainda, quando movemos uma peça no tabuleiro sem saber o que aquela jogada vai desencadear?! É mais ou menos isso.

Acontece que eu não acredito em sorte ou acaso. Porque, esse suspiro prévio que damos soa como uma oração, e o que decorre não é um 'tanto faz'. Pelo contrário, parece estar num script. E, talvez, por isso, essa sensação, de que milésimos me suspendem no ar, me intriga. E acontece e sinto em vários momentos. Parece loucura? A gente fechar os olhos, e de alguma maneira, coração saber "não depende 100% de mim"? Existe algo que foge do meu controle, e eu não consigo ver! Como se o meu quadro fizesse parte de uma exposição em que eu não sou o artista. Eu ajudo nas probabilidades das coisas, até com certa autonomia, mas tem um limite invisível, que após ultrapassado, nada eu posso fazer ou mudar, e é quando me foge o controle...

Em questão de segundos, antes de pular na água, não apenas dessa vez que me machuquei, mas em quase todas, da ponte, em mergulhos, na caverna, na praia, no mar e no rio, eu sempre senti isso. Sempre que me arrisco, ou que há riscos ou chances. Eu não tenho o controle do que vai acontecer. Apenas da responsabilidade de me colocar onde me coloquei e do gesto e atitude que decidi tomar. Em toda viagem que planejei, eu nunca sei o que vai transcorrer, quem vou encontrar, que histórias ouvirei, que perrengues passarei, que mudanças aceitarei, por mais planejados que estejam os dias e os lugares!

Outro exemplo: nunca sei o que vai acontecer ao ir dormir. Você já pensou isso? Mas mesmo assim dormimos, sem saber se vamos acordar. Parece que assim, se entregando, a minha história vai fazendo parte de uma maior, de algo maior - que eu também não sei definir, mas que é como o sonho que a gente tem e não se lembra na manhã seguinte. Não temos controle do que sonharemos, mas decidimos adormecer. E as coisas, dessa maneira, parecem ocupar o seu devido lugar, e eu a ser quem devo ser, naturalmente. Vêm a mim as reações de minhas ações, que me dão a sensação de estar sob controle, mas que não é todo meu.

Então, o que fazer com essa informação? "Sob controle". Acho que só mesmo repetir o que eu fiz: sorrir. Entre o piscar dos olhos, não sei o que acontecerá. Essa sensação, me veio aqui, parada, novamente, mas, agora, em forma de piada. Não por ser cômica, mas por ser uma estranha segurança, de que, ainda que eu seja responsável pelos meus atos, a minha história não depende só de mim. E a péadinha é "ainda bem", pois, se dependesse, seria uma história um tanto 'debilitada', 'manca' e 'sem pé' nem cabeça, a partir daqui, desse ponto de parada. Assim, como o dia vem após a noite, a luz após a escuridão, me acompanha uma única certeza: a de que não vai ser uma mera consequência de meus atos e escolhas. Conta com algo maior que eu. E está tudo certo. Tudo sob controle.




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