Nos ensinaram que rasurar é feio. Mas talvez seja a mais bela coragem de corrigir um erro, sem medo de reparar o que é preciso dar um jeito. Talvez se esses riscos fossem traçados mais frequentemente não tinha como tanto erro ficar escrito assim permanentemente... Falo tudo isso, porque sabe quando muda o ano, e vamos escrever a data em um caderno ou cabeçalho e colocamos o ano anterior? Pois é, cometi essa falta recentemente. Esse tipo de erro, ao mesmo tempo em que é gritante - quem esquece do ano em que está?! -, é também comum e corriqueiro no início do ano. Que atire a primeira pedra que nunca teve esse tipo de relapso! kkk... É meio como se algo grande mudasse, mas ainda não nos damos conta o suficiente ou, em outras palavras, sinal de que a adaptação está em processo.
Ao olhar ali, eu rasurando o ano em que estávamos, dizendo ao meu cérebro que de uma vez por todas compreendesse e não se equivocasse mais sobre nossa posição na linha do tempo, me intrigou a razão pela qual isso acontece... Seja uma ideia, um novo número de celular, um novo compromisso na rotina, seja um hábito que deve ser modificado por restrições médicas, ou uma maldita nova regra ortográfica que por sei-lá-que-raios resolveram mudar, esses equívocos acontecem e parece-me pura falta de percepção, desatenção, sempre relacionados à mudança de costumes. Talvez, uma questão de desfoque.
Sinto que, em nossa vida corrida, cada vez mais frequentemente acontecem rasuras gritantes, como essa de errar o ano. Às vezes, olho para trás e ao retomar a algumas coisas, penso: como eu me acostumei com isso? Em que ponto isso virou normal? Pois, em algum momento, parei até de percebê-las. E desorientada, sem saber lidar com o tempo direito, parece que muitos anos passaram... E como Ralph W. Emerson diz "Os anos ensinam muitas coisas que os dias desconhecem."
Hoje, nesse ponto de parada, tive o privilégio de perceber algumas rasuras por fazer. Costumes ora inúteis ora verdadeiramente não saudáveis, hábitos ruins, que merecem um bom tumulto de riscos à caneta. E me questiono: por que ainda erro o ano? Por que ainda me importo com algumas opiniões? Por que me convenço de que algumas lutas não são minhas e deixo atitudes inadmissíveis, que afetam outros, passarem sem eu me manifestar?
Sabe aquela relatividade, de que quando esperamos, o tempo não passa, e quando estamos aproveitando algo muito bom, ele voa? Tem sido assim... Alternando entre minhas próprias sensações, enquanto o tempo é o mesmo. Só reparo no que me afeta, no que importa ao meu redor enquanto ignoro e não me sensibilizo por fatos verdadeiramente relevantes.
Um exemplo que talvez comunique melhor a vocês: viagens. Hum... agora ficou interessante, não?! Pois bem, lembrei esses dias de um dos meus maiores questionamentos quando estava prestes a ir para a Noruega realizar o sonho de ver a Aurora Boreal. Eu me perguntava o quão egoísta eu estava sendo, indo atrás de algo só para mim, enquanto podia dedicar meu dinheiro e tempo para ajudar pessoas que mal conseguem sonhar... Voltei da realização do meu sonho com a 'linda' ideia e um real desprendimento - que ainda reside em mim - de largar tudo e viajar o mundo. Aliás, ideiazinha que está bem na moda...Como heróis, pessoas tem se jogado por aí, como aventureiros em busca de lugares, pessoas, fotos, culturas e distrações realizando o sonho de não ter que lidar com as preocupações da vida enquanto a sociedade local a que pertence rui e sofre diversas outras omissões.
Não, eu não sou tão engajada quanto estou soando agora, mas a verdade é que temos culpa em tudo isso. Algo grande está sendo escrito, e precisava de rasura, mas ao invés disso, tudo nos impulsiona a viver pensando em colorir nossa própria aquarela. Veja bem, não acho errado sair de férias, nem realizar sonhos, nem conhecer lugares... Tampouco é minha intenção constranger ou apontar dedos, porque essa reflexão é sobre a MINHA vida e o que vejo vivendo no mundo. Até acho que existem muitas coisas boas que por si só não são erradas, mas a questão aqui é sermos pessoas engajadas em fielmente buscar nosso bem e o que nos parece bom - como se vivêssemos num filme da Disney - do que o bem comum e uma boa vida a todos. Isso fica de tarefa só para as autoridades que elegemos e criticamos.
Cheguei à conclusão de que tenho que constantemente me lembrar disso, assim como de que não posso pisar no chão com meu pé quebrado - ou melhor, meu novo pé de aço. Principalmente nos momentos em que me acostumo, e em que não há dor, é que essas faltas acontecem - afinal, não me afeta!... Preciso acordar para rasurar minha conformidade com coisas que não chegam à minha vida diretamente, mas afetam meu semelhante, minha sociedade, nosso mundo. Talvez uma luta contra o automático egoísmo imputado em mim... Talvez, perdi o brilho das mais simples coisas da vida por estar distraída. Cometo erros por não estar presente no presente, com olhos e coração abertos. Falta uma sutil sensibilidade para evitar tão gritantes rasuras...
Percebo hoje que é melhor eu rasurar algumas das viagens dos sonhos, para simplesmente dar a chance de outros sonharem também. Mas antes de qualquer rasura grande assim, quero verdadeiramente rasurar a indiferença com que acordo diariamente, a automaticidade da rotina, a insensibilidade aos olhos que de mim se aproximarem ao longo do dia... Porque, no fundo, hoje eu sei que se eu pôr o pé no chão, tudo desmonta, principalmente eu e, sinceramente, talvez o que mais precisamos seja de pessoas desmontadas que saibam rasurar. Em alguns momentos, será necessário eu aprender a me rasurar para dar espaço à escrita do outro.
Meu pé é uma grande rasura. Ele nunca vai ser o mesmo. Não há corretivo ou branquinho ou errorex - como desejar chamar - para depois desenhar em cima desse erro um pé novinho como o que nasceu comigo. Mas eu definitivamente não pretendo rasurar o acidente com meu pé. Talvez tenha sido o ponta pé para os melhores despertamentos da minha vida... Afinal, errando se aprende.
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Sensacional
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