Quando pequena sempre vi aqueles filmes em que a criança foge de casa e vive altas aventuras. Que louco faz um filme para incentivar esse desejo nas crianças?! A verdade é que tinha essa vontade, sem mesmo ter o motivo. Até mesmo quando tudo está bem, fugir se faz tão atrativo. Afinal sempre há mais para ver e coisas por se descobrir. Quem não quer se surpreender?
Às vezes eu quero fugir. E essa sensação não me parece ser peculiarmente só minha. Estou errada? Desde meus primeiros anos de adolescência, a vontade de abstrair se fez cada vez mais tentadora e com várias justificativas. Teve vezes em que a impossibilidade de concretizar este desejo me fez bem artística e criativa, e muitos novos mundos surgiram na minha imaginação quando o abismo se tornou minha incrível habilidade de sobrevoar. Mas e quando a gente tem às mãos a escolha de literalmente fugir? Acredito que essa opção sempre existe, é uma escolha que podemos fazer até mesmo parados.
Por alguns anos me distanciei de tudo e todos que não me agradava - vivia o sonho. A solitude não me incomodava contanto que me encontrasse apenas com meus próprios desafios e problemas. Tão egoísta que sou, você deve estar pensando... Pois sou. Não nego e também não me orgulho ou sinto-me em paz me enxergando assim. Mas tem sido interessante entender, talvez mais claramente, que a minha indiferença não importa nem depende de a fuga poder acontecer concretamente ou não.
Sabe o que é, eu me canso das pessoas, me canso de seus constantes problemas pelas mesmas coisas - que eu considero picuinhas -, me canso de conversar (acredite ou não) sempre que não for do meu interesse o assunto... Quando me vejo em uma discussão tola, quero fugir. Quando a situação não me agrada e o tempo parece cochichar "desperdício, desperdício", quero fugir. Quando aos meus olhos não recebo a beleza que acho que mereço, quero fugir. Quando não ouço o som ou o tom que me agrada, quero fugir. Quando não me recebem como eu queria, quero fugir. Quando não me amam o suficiente, quando não notam que sou diferente, quando me julgam sem me conhecer, quando me mal compreendem...
Mas estando aqui parada, de alguma maneira foram poucas as vezes em que quis fugir. É engraçado, agora, perceber, que toda vez que quero fugir estou pensando em minhas expectativas, como uma bela e formosa rainha que merece ter tudo de melhor do mundo. A melhor roupa, a melhor companhia, a melhor dança, o melhor banquete, os mais belos momentos e consolos. Ter de me calar quando queria falar umas poucas e boas, ter de me portar quando queria falar mais alto, ter de ouvir, quando queria interromper. Sou extremamente tendenciosa a ser meu próprio Sol. Pois bem, aprendi e preciso diariamente reaprender que ao invés de fugir, mais vale ficar em um ponto parada - sem precisar se forçar ou ser forçada - para me enxergar melhor e ser desafiada a ser melhor em amar outros como eu amo a mim mesma.
Se quando criança só me faltava motivos para fugir, devia ver na simplicidade do que se tem e do que se é, satisfação. Acumulo, agora, em minha extraviada e fugitiva forma de ser, mil justificativas para querer ficar. E talvez as primeiras razões sejam crescer, amadurecer e aprender a verdadeiramente amar. Se é para o bem de outros e felicidade geral de encontrar propósito em existir nesse mundo, digam a todos que fico. (óia eu me fazendo de príncipe agora... calma, um dia eu aprendo).

Muito bom!
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