Cem dias entre teto e cama. Talvez um pouco mais do que isso. Assim como no livro do Amyr. Cem dias e mais alguns entre dois limites. No meu caso, acrescenta-se uma porcentagem razoável de exagero, afinal, sei que terei momentos fora do teto e da cama. Mas não tenho dúvidas de que eles serão a maior parte do tempo os meus delimitadores... acima e abaixo.
Desde pequena, sempre gostava de me imaginar com super-poderes, meio super-herói... voando, respirando debaixo da água, salvando o dia, salvando o mundo, vivendo por algo maior, ora uma cientista ora uma desbravadora que descobre algo que muda a história da humanidade... Hoje eu considerei, pela primeira vez, as minhas limitações. Não tenho os super-poderes que sonhei. Ao mesmo tempo, consegui alcançar muitas coisas extraordinárias. Talvez foi assim que os tão incríveis poderes permaneceram em mim, ganhando uma nova forma de existência na minha vida adulta: sempre tendo em vista alguma maneira de ainda me encontrar especial ou visionária ou com uma missão única.
Mas agora parada no que alguns chamariam de "limitação"- como se antes não fosse - a moeda caiu de coroa para baixo, e me perguntei: e se minha vida não for para marcar o Mundo com um grande feito meu? E se eu for, na realidade, só mais uma pessoa normal? E se, na história do super-herói, eu faço parte de quem precisa de ajuda, de quem é salva e resgatada?
Para quem sempre acreditou que o limite do céu poderia ser, na verdade, mais que o Espaço, e que, bem fundo no mar, existe um novo mundo a se descobrir, bem como toda a Terra possui uma extensão imensa de fronteiras e lugares para se explorar, a minha mente nunca se aquietou sob um teto - nem mesmo quando isso era mais inatingível do que agora, em minha atual vida livre e 'independente' de adulta. Na mania de escrever na agenda todo dia onde eu estou, observei que nos últimos dois anos, 58% dos meus dias eu passei sobre teto e cama que não eram os meus: nem na minha casa em São Paulo nem em Campinas. E, sinceramente, sequer passei muito tempo sob tetos...
Você pode achar normal tudo isso. Mas mesmo que cômico é também fatídico. Uma adulta descobrindo que não possui super-poderes. E a dor do choque da queda não me espantou tanto quanto a dor me descobrir falível, quebrável, vencível... limitada. Pensar que eu não sou tão ilimitada quanto pensava ser foi pior que descobrir que o Papai Noel não existe. Foi como ver pela primeira vez que o que o mágico fez foi um truque. E é doloroso me achar assim, infantil, ingênua... Será que por tanto tempo eu vivi parcialmente na realidade? E, portanto, ser tão sonhadora é algo ruim?
Então, voltando-me à história do herói... Por que será que sempre queremos ser o protagonista com super-poderes? Sonhamos em ser mais do que somos, sempre melhores. Queremos solução e queremos trazê-la por nossas próprias mãos. Mas, ainda que o herói leve o nome do filme, os aplausos e a mocinha, a aventura nunca acaba, o vilão nunca pára de o perseguir... Talvez feliz mesmo seja quem foi resgatado, quem ia ser morto e ganhou nova chance, quem viveu pra depois contar o que mudou para sempre sua história.
Talvez o teto ao qual constantemente tenho encarado, e a cama da qual necessito para sustentar meu corpo em paz estejam aqui para me lembrar disso. Eu sou limitada. Meu lugar não é sob novas aventuras e perigos todo dia. Nem sempre eu vou vencer. Sou mortal. Eu não voo nem respiro debaixo d'água, nem luto contra os bandidos. Meus ossos quebram. Há acidentes sem volta. Eu choro. Eu posso parar.
Então passo a considerar que isso não vai me impedir de viver coisas extraordinárias e ter experiências incríveis. Parar, às vezes, é o que vai fazer o resgate acontecer. Estar em um mesmo lugar faz a salvação chegar. A limitação sempre existiu, ainda que a gente só a enxergue quando estamos parados. É aliviador saber que eu não tenho que salvar o dia. Só se salva o que é valioso, e sou eu quem precisa de resgate. Assim, sinto-me limitada sem me sentir mal por não ser a heroína. Pelo contrário, especial: sou a mocinha que mesmo sem poderes pode voar nos braços do herói, que mesmo sem matar os vilões, sente o alívio e a paz de vencer. É se encontrar como uma edição limitada: com data de expiração, mas muito bem apreciada. Não preciso mais de super-poderes. Minha história pode não virar filme, mas aqui e assim dá pra se viver coisas inacreditáveis também.
Da menina que ainda acredita em ir pro Espaço e desbravar o Mundo, mas que está aprendendo a apreciar a história sem ser a protagonista.

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