"Movimento Circular Uniforme". Foi um dentre outros tolos pensamentos que tive no momento: em meio a uma boa leitura durante a tarde, minhas pálpebras pesaram e resolvi fechá-las. Talvez fosse o calor, ou algum resquício dos remédios do pós-cirúrgico, mas tudo começou a rodar. O que uma pessoa normal pensaria? "Uma crise de labirintite.", "Tontura", "Devo chamar alguém!"... É, não foi o que eu pensei... "Uh!Tudo tá girando!"," Movimento Circular Uniforme...". Sempre gostei de Física.
Enquanto tudo girava, minha decisão foi continuar de olhos fechados e aproveitar. Estava bom... Sabe aquela sensação de êxtase quando gente está no ápice da velocidade no gira-gira? Sempre gostei de balanço, mas meu brinquedo favorito nos parquinhos sempre foi o gira-gira. Creio que por causa dessa sensação, meio de outro planeta. E ali estava, sentindo-a de novo, sem sair do lugar...
E obviamente, isso me fez pensar, o que está me dando impulso? E, mesmo que esteja boa a sensação, quando pára de rodar? Aqui, parada, cheguei a mais uma conclusão. Nos últimos 2 anos, realizei muitas coisas e foi incrível, como a sensação de êxtase desse brinquedo. Mas concluí que isso não me levou muito adiante. Veja, realizei dois dos meus maiores sonhos: ver a Aurora Boreal e aprender a mergulhar. Além disso, tive a oportunidade de conhecer mil lugares e viajar mais do que em todos os outros anos da minha vida somados. Eu só girei. Gostei. MUITO! Mas só girei... Digo isso, sem frustração, e também só consegui enxergar agora que eu estou parada.
Tem mais uma brincadeira assim: aquela de girar em um cabo de vassoura e sair correndo para realizar uma tarefa, como acertar uma bola no gol ou levar uma colher com ovo atravessando um campo de futebol. É interessante pensar que a gente tem dificuldade de realizar algumas tarefas se vimos de consecutivos giros, de movimentos contínuos... Meio tontos, cambaleamos e, ainda que tenhamos os olhos fixos no alvo, não conseguimos. Mal paramos em pé!
Hoje, em uma leitura da obra de Amyr Klink, "Cem dias entre céu e mar", em que fala sobre sua travessia pelo Atlântico Sul, da África (Namíbia) ao Brasil, me deparei com o
seguinte trecho:
"Se, de um lado, tudo estava em movimento, brusco ou lento, o barco balançando, as ondas correndo, ou as nuvens e os astros que discretos se moviam, por outro lado, descobri uma exceção - algo imóvel e estável -, a linha do horizonte. Única forma fixa no oceano, era dele que precisava para conseguir minhas posições, e, ao se encontrar perdido entre nuvens baixas ou escondido atrás de altas ondas, fazia-me sentir um pouco triste.
O horizonte, linha perfeita e segura, fronteira do destino que se renova eternamente e que abriga nossos objetivos, passou a ser meu ponto de apoio e companheiro de viagem. Enquanto estivesse à vista, sentia-me disposto e em segurança; mas, quando desaparecia ou tornava-se ondulado, sabia que era melhor amarrar bem os remos antes de ir dormir."Será que me faltou esse horizonte nesses últimos tempos? Acredito que não. Tenho certeza de qual é meu Horizonte, meu ponto de apoio, meu Companheiro de viagem. E também creio que minhas referências não mudaram, vejo até que bem a possível direção a percorrer. Talvez o que eu precisava, quando não conseguia ver o horizonte e quando algumas ondas se formaram era ter amarrado os remos, ido dormir e descansar. Por um tempo, parar de remar. Pelo menos, até que revisse a linha estável, o horizonte, me informando bem a minha posição. Acho que só assim eu teria clareza da direção e não estaria tão extasiada nos mil e um giros que faziam minhas pernas cambalearem e as tarefas não serem realizadas tão bem.
Agora, no ponto de parada, ainda tenho o horizonte como referência. E sei que poderei remar na direção de momentos extasiantes de novo em breve. A lição é aprender a hora de parar e a hora de girar. Talvez assim eu realize a travessia que me cabe e chegue certeiramente ao destino final.

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